19 de Setembro de 2020

DINOSSAUROS EM VÊNUS?
Uma análise imparcial

Por Hindemburg Melão Jr.

O título que eu havia pensado inicialmente para esse artigo era “Vida em Vênus, uma análise imparcial”, mas depois que Thiago Bertho postou um print de uma reportagem no El Pais, decidi mudar o título, inspirado na postagem dele.

Na coleção de Valmiro Rodrigues Vidal “Curiosidades”, cuja primeira edição é de 1956, há vários capítulos destinados a temas relacionados à Astronomia, inclusive um capítulo sobre os canais de Marte e um sobre os dinossauros de Vênus. Naquela época a Ciência se ocupava seriamente dessas questões, inclusive o colega Martini Jr. publicou recentemente uma revisão histórica sobre os canais marcianos, na qual ele analisa as evidências existentes na época sob a luz do que se conhecia, e parece que naquele contexto a hipótese de vida inteligente em Marte era bastante razoável ou até mesmo muito provável, já que não havia outras explicações para os canais observados e fotografados.

A imagem a seguir é uma foto de Marte com o refrator de 24 polegadas do Observatório do Arizona, na qual se pode ver muito claramente as estruturas que foram interpretadas como “canais”.

Mas, curiosamente, desde que as sondas Mars, Mariner e Viking sobrevoaram e pousaram em Marte, nos anos 1960 e 1970, nunca mais se voltou a enxergar ou fotografar esses canais. Aparentemente as pessoas não apenas estão mais propensas a enxergar o que elas gostariam como também estão mais propensas a fotografar o que acreditam que exista, produzindo “provas” irreais de algo que não existe, apenas por acreditarem que existe. Não estou dizendo que estejam fraudando, mas sim que estejam deixando que fatores emocionais exerçam um papel de peso excessivo e interfiram dramaticamente nos resultados.

Analisando os fatos com imparcialidade, as evidências de vida inteligente em Marte existentes até os anos 1950 eram muito mais fortes que as evidências atuais de vida microbiana em Vênus, considerando os prós e contras em cada caso.

O artigo completo sobre os canais de Marte está disponível aqui:
http://astronomiapratica.blogspot.com/2015/02/o-que-aconteceu-com-os-canais-de-marte.html

Atualmente tais ideias sobre canais marcianos podem parecer bobagem, mas naquela época eram levadas muito a sério, pois não se tratava apenas de um pequeno grupo de pesquisadores que havia obtido alguns resultados frágeis sobre a possível detecção de moléculas que poderiam ser produzidas por organismos vivos, mas sim de milhares de observadores experientes que ao longo de décadas vinham observando e fotografando imensas estruturas que pareciam fruto de uma engenharia avançada. Mesmo assim, estavam redondamente enganados.

Durante cerca de 80 anos os canais de Marte foram encarados como indícios fortíssimos de que Marte seria habitado por uma civilização tecnologicamente muito desenvolvida, capaz de transportar a pouca água que restava nas calotas polares até as cidades nas regiões de clima mais temperado. Isso não seria um processo fácil, já que a aceleração gravitacional nos polos é maior do que nas latitudes mais baixas, portanto o natural seria a água escoar do equador para os polos, não o contrário. Esse processo de irrigação implicava fazer a água “subir” cerca de 18 km. Quem já tentou lavar algo acima da altura da caixa d’água sabe que não é nada simples fazer a água subir poucos metros acima do nível da fonte, que dirá cerca de 18.000 km.

No caso de Vênus, há um episódio de Cosmos no qual Carl Sagan resume muito bem a questão:

https://youtu.be/Fd3myy9k_Vs?list=PL96wQHzW_46q35ed3-U3SuqhBmhBKpj9P&t=2078

Copiei o link do vídeo no momento em que ele começa a falar sobre isso, mas é recomendável assistir ao vídeo todo, aliás, é recomendável assistir ao seriado inteiro, em 13 capítulos, bem como ao remake de 2014 e a segunda temporada de 2020, que embora não sejam tão bons quanto o original, são claramente melhores que a maioria dos outros documentários científicos.

O trecho crucial é quando Sagan diz “não se podia ver nada na superfície de Vênus, porque ele era coberto por espessas nuvens, que provavelmente eram feitas de água, então ele deveria ser um pântano, no qual deveria haver samambaias e dinossauros. Observação: não conseguimos ver nada em Vênus. Conclusão: dinossauros.”

A situação atual tem algumas diferenças, mas essencialmente se está incorrendo no mesmo vício de concluir a existência de vida a partir de quase nada.

A temperatura média na superfície de Vênus é cerca de 460ºC, sua atmosfera é constituída por 96% de CO2, sem quantidades relevantes de O2, sem traços relevantes de O3 para filtrar os raios UV, possui quantidades significativas de H2SO4 e alguns traços de HCl, o que o torna inabitável inclusive para os extremófilos mais resistentes conhecidos. Pior que isso, moléculas orgânicas complexas não poderiam se manter na presença de H2SO4 nas concentrações observadas e nas temperaturas aferidas. A probabilidade de alguma forma de vida se desenvolver nessas condições é muito perto de zero.

A vida exige a formação e preservação de moléculas muito complexas, mas nessas condições tais moléculas não chegam a se formar. Uma molécula de DNA tem bilhões de átomos organizados de maneira muito específica, enquanto uma molécula de fosfina tem 4 átomos, assim como a maioria das outras moléculas observadas na atmosfera de Vênus tem geralmente menos de 5 átomos e nenhuma entre as detectadas têm mais de 10 átomos, com presença relativa abaixo de 1 em 1 trilhão.

A tabela a seguir mostra a concentração das substâncias detectadas na atmosfera de Vênus:

Um ambiente no qual as moléculas mais complexas observadas possuem menos de 10 átomos, tem baixíssima probabilidade de que surjam e sejam mantidas moléculas com 20 ou 30 átomos. Quanto maior a complexidade (maior número de átomos), menor é a probabilidade de que as moléculas se formem e se mantenham em tal ambiente. Pode-se praticamente descartar a possibilidade de moléculas com 100 átomos, cuja probabilidade de surgir nesse ambiente deve ser perto de zero. Que dizer então sobre a probabilidade de se formar uma molécula com 1.000.000.000 (1 bilhão) de átomos ou mais?

Os organismos vivos mais simples possuem bilhões de átomos, isso indica uma probabilidade incomensuravelmente baixa de que tais estruturas possam surgir e se manter nessas condições. E não se trata apenas do número de átomos, mas também da maneira muito especializada como estes átomos precisam estar organizados para que o resultado seja um ser vivo. Isso praticamente descarta a possibilidade de vida em Vênus, e não estamos falando de uma forma específica de vida, mas de qualquer forma possível de vida, porque todas elas exigiram a formação e manutenção de moléculas constituídas por grande número de átomos, o que é incompatível com aquele clima.

Então se verifica que na luz que atravessa a atmosfera de Vênus estão presentes algumas linhas de absorção tipicamente observadas em PH3, que é uma molécula muito simples, assim como as outras observadas em Vênus, portanto é bastante natural que ela exista por lá, mas não é minimamente plausível que naquele ambiente ela tenha se formado a partir de alguma atividade biológica. O fato de não se saber como essas moléculas se formaram não justifica fantasiar que organismos vivos poderiam ter sido os produtores dessas moléculas.

Uma das dificuldades para explicar a formação de PH3 é que no caso de Vênus a concentração de H2 parece ser baixa demais para justificar a proporção de PH3 detectada, enquanto a presença de H2 em Júpiter e Saturno é muito mais abundante. Por outro lado, a concentração de H2O e HCl em Vênus é muito maior que a de PH3, e o hidrogênio presente no H2O ou no HCl seria uma das explicações mais simples e plausíveis para a formação de PH3. Outra dificuldade é que a meia-vida da PH3 naquele ambiente é de poucos minutos, portanto ela precisaria ser reposta continuamente para que não fosse completamente eliminada. Nesse caso, algum ciclo relacionado às diferentes altitudes poderia explicar a quebra da fosfina, seguida pela formação de outra substância, que ao mudar de altitude (e temperatura e pressão) passaria por processos que poderiam conduzir à formação de outras substâncias e novamente produziria fosfina, repondo continuamente essas moléculas. Não precisaria ser necessariamente algo nesse caminho, mas sim algo nesse nível de simplicidade e plausibilidade.

Isso é o que o bom senso e a boa Ciência sugerem. Há indícios de que haja fosfina em Vênus, numa proporção em torno de 0,000002%, e caso realmente essa presença seja corroborada por investigações posteriores de pesquisadores independentes, descartando a possibilidade de algum erro de medição ou alguma “contaminação” da luz analisada antes de chegar aos espectroscópios, o melhor que se pode fazer é afirmar que ainda não se conhece qual processo está produzindo essa substância.

Explicar a origem dessa fosfina por meio de algum processo químico não deve ser muito difícil, mas explicar o desenvolvimento de moléculas complexas (vida) no clima de Vênus deve ser imensamente mais difícil, a tal ponto que não faz sentido considerar seriamente a possibilidade de que essa fosfina tenha origem biológica, exceto se tal afirmação tiver objetivos publicitários por trás, de fazer a descoberta parecer muito mais importante do que realmente é, de conseguir mais verbas para pesquisa, de conseguir projeção na mídia etc.

Por exemplo: aqui em casa há um relógio de pêndulo cujo comprimento foi ajustado precisamente para que atrase menos que 2 minutos por ano. Mas depois de algum tempo, ele começou a atrasar mais de 5 minutos por ano. Uma das possibilidades é que o acúmulo progressivo de poeira sobre o pêndulo tenha alterado a distribuição da massa, concentrando mais poeira na parte de baixo, alterando o comprimento até o baricentro da estrutura e afetando a duração das oscilações. Outra possibilidade é que as oscilações de temperatura ao longo do ano não sejam as mesmas a cada ano, a ponto de terem alterado o comprimento do pêndulo de maneira diferente a cada ano, afetando o período. Outra possibilidade é que o peso do pêndulo tenha gradualmente deformado a estrutura, alterando o comprimento. Outra possibilidade é que a mola espiral, que preserva a amplitude de oscilação inalterada, tenha ficado mais frouxa com o tempo e, com isso, a amplitude tenha sido modificada, afetando o período. Outra possibilidade é que existam alguns duendes que vão mexer no relógio quando todos estamos dormindo, e sejam os responsáveis pelas anomalias observadas. Entre outras possibilidades, inclusive combinações de várias destas.

Eu poderia calcular os efeitos produzidos pela temperatura, pela tração, pelo acumulo de poeira etc., pela maré gravitacional da Lua, do Sol e de outros objetos massivos relevantes, e descartar cada uma dessas hipóteses, mostrando que nenhuma delas seria suficiente para explicar as variações observadas, restando apenas a hipótese dos duendes, e então concluir que os duendes sejam uma explicação plausível.

Ou então eu poderia concluir que haja algum efeito que ainda não cheguei a considerar, sem apelar para a hipótese dos duendes.

Se eu quiser tratar o problema de forma científica, eu não posso levar a sério a possibilidade dos duendes, mas se eu quiser usar o caso para fazer publicidade, eu posso apresentar a hipótese dos duendes como a alternativa sobrevivente, ao lado de várias outras que foram descartas após alguma análise quantitativa, e com isso causar a ilusão de que a hipótese dos duendes é aceitável.

Não acho que a hipótese dos duendes deveria ser descartada completamente, mas também não poderia tratá-la como plausível, porque ela se opõe muito grotescamente a tudo que se conhece, e não há indícios suficientemente fortes para suportar com seriedade uma ideia tão fantasiosa. Seria necessário realizar muitos outros experimentos que tentassem falsear especificamente a hipótese dos duendes e se não fosse possível falseá-la, então sim poderia começar a levar a sério essa possibilidade.

No caso da fosfina supostamente detectada em Vênus, temos uma situação similar a esta dos duendes mexendo no relógio.

No dia 14/9/2020, as mídias foram inundadas com notícias sobre a descoberta de fosfina na atmosfera de Vênus, com a alegação de que a presença dessa substância em planetas telúricos poderia ser interpretada com uma forte evidência da existência de vida. Isso é basicamente o que diz a fonte primária, que já está exagerado, e na esmagadora maioria das notícias que tentam “resumir” ou “simplificar” o texto original, há exageros em cima de exageros, além de diversos erros graves, resultando em distorções muito distantes da realidade, com todo tipo de invenção sensacionalista.

Por isso vou focar no artigo publicado na Nature, que é talvez a revista de divulgação científica mais respeitada da atualidade, e no artigo publicado em Arxiv, que é a versão mais completa e contém os textos originais. Infelizmente não divulgaram os dados brutos da pesquisa, o que possibilitaria dar abordagens estatísticas diferentes (possivelmente mais apropriadas, em alguns casos) e investigar o caso com mais profundidade:

https://arxiv.org/abs/2009.06499

O texto acima, assim como a versão publicada na Nature, está bem escrito e faz uma análise interessante dos resultados, mas entre as possíveis interpretações está um “leve toque publicitário” responsável por 99,99% da repercussão do artigo. Se exatamente o mesmo artigo, com mesmos resultados, tivesse sido anunciado sem citar “possibilidade de vida”, provavelmente teria passado despercebido. Essas 3 palavras irrelevantes e inapropriadas nesse caso foram responsáveis pela imensa projeção do artigo. Apesar disso, é um artigo de boa qualidade. O estrago maior está nos outros 99,9% de artigos publicados em outras revistas, sites, canais, blogs etc.

Quem tiver interesse em ver o nível das demais notícias sobre o assunto, seja para dar risadas, seja para chorar, basta colocar no Google “fosfina em Vênus” ou “vida em Vênus” ou algo assim.

Há pouco tempo foi propagada a notícia sobre a possível explosão iminente de Betelgeuse, quando na verdade a probabilidade era baixíssima, conforme expliquei na época nesse artigo: https://www.saturnov.org/betelgeuse, outra notícia espetaculosa foi sobre o asteroide Oumuamua ser uma nave alienígena, outra foi sobre a estrutura irregular observada na órbita de KIC 8462852 ser uma esfera de Dyson, outra foi alardeando a primeira “fotografia” de um buraco negro, que não era fotografia nem era de um buraco negro. Era o ajuste de um modelo teórico a alguns poucos pontos de referência estimados com base numa interferometria de longa linha de base para um disco de acreção em torno de um objeto compacto. Agora a “bola da vez” é que a presença de fosfina na atmosfera de Vênus é um forte indício da existência de vida.

Seria fantástico se fosse encontrada vida em Vênus, Marte, Encélado, Titã, Europa, ou qualquer outro objeto fora da Terra e que não tenha sido previamente “contaminado” pela vida terrestre transportada por naves anteriores, mas a maneira como se força essas interpretações a partir de evidências mínimas, criando expectativas irreais, seguidas por frustrações, vai minando a credibilidade da Ciência e dos cientistas, não apenas dos envolvidos diretamente nessas peças publicitárias, mas atinge também do que apreciam abordagens mais sérias e técnicas.

Acho a notícia em si excelente, assim como foi a notícia sobre a primeira imagem de um disco de acreção de um buraco negro baseada em alguns dados empíricos para parametrizar o modelo teórico sobre como a imagem deveria ser. Ainda que se trate de uma imagem mais de 95% “completada por um modelo teórico”, usando dados empíricos para definir as posições de menos de 5% dos pixels que formam a imagem, ainda assim é uma proeza extraordinária. Mas a maneira como a notícia é divulgada acaba pervertendo completamente a importância real do trabalho para atender às expectativas de um público fútil e sem qualquer interesse na Ciência, mas sim nas papagaiadas carnavalescas que se faz a respeito.

A interferometria, em si, é um método engenhoso e extraordinário, que possibilita fazer medições com uma acurácia sem precedentes. Seria muitíssimo mais interessante se essas reportagens procurassem explicar como se utiliza a interferometria para obter esses resultados, em vez de especular sobre temas que deveriam fazer parte de obras de ficção.

Nesse caso, seria muito mais proveitoso que os artigos de boa qualidade explicassem aos leigos como funciona a espectroscopia. Aqui não estou explicando porque no link postado no início já se pode encontrar uma descrição de Sagan sobre isso, ou em meu artigo no qual analiso a palestra de Sérgio Cortella “você sabe com quem está falando?”: https://www.saturnov.org/outrostemas

Fiquei animado com a notícia, porque apesar de tudo é talvez o melhor indício que se tem até hoje sobre a existência de vida fora da Terra. Isso não significa que esse indício seja relevante, mas quando tudo o que se tem acumulado como evidência é quase nada, qualquer
infinitésimo que se adiciona acaba sendo importante.

Um dos defensores dos autores (autoras) desse estudo afirmou que eles não disseram que haviam encontrado vida em Vênus, mas sim “fortes evidências” de vida. Conforme comentei desde o início, uma das críticas é justamente essa, porque não há fortes evidências de vida. Há uma “vontade” desesperada de construir fortes evidências. A mesma pessoa que fez esse comentário disse também que os autores do artigo teriam dito que a hipótese sobre a fosfina ter sido produzida por organismos vivos seria a última hipótese, e pior, ele disse que eu também havia dito isso, o que se pode facilmente constatar que não é verdade, relendo meu texto acima.

Nem os pesquisadores nem eu dissemos que deveria ser a última hipótese. Na verdade, numa lista entre todas as hipóteses possíveis, certamente a produção biológica desse PH3 estaria entre as primeiras hipóteses, mas provavelmente não entre as 100 primeiras e certamente não entre as 10 primeiras. Portanto seria um erro grave situar essa hipótese entre as últimas e pior ainda como sendo a última. Mas o fato de estar entre as primeiras, num universo de bilhões de possíveis explicações, esta não ficaria sequer entre as 100 explicações mais prováveis e não merecia ser considerada como “plausível”.

O fato de a hipótese de origem biológica ser uma das primeiras a serem consideradas não significa que tenha uma probabilidade expressiva de ser correta. É muito difícil estimar tal probabilidade, mas provavelmente é bem menor que 1%, talvez menor que 0,001%. Porém da maneira como a notícia é apresentada, fica-se com a impressão de que se trata de uma probabilidade muito maior do que realmente é.

Sem ter profundos conhecimentos sobre Astrobiologia, o que me faz pensar que eu estaria qualificado para dar palpites num estudo realizado por astrobiólogos experientes? Há várias razões óbvias para isso, e algumas menos óbvias. Vou citar algumas das mais óbvias, sem entrar em detalhes, e depois analisar algumas das menos óbvias:

Todas as disciplinas estão interligadas de diferentes maneiras e um especialista em qualquer área pode apontar várias falhas nos trabalhos de especialistas em outras áreas. Um advogado, por exemplo, pode analisar um plano de negócios e apontar uma extensa lista de problemas que o experiente empreendedor que criou aquele plano de negócios não havia considerado. Um estatístico, um lógico, um matemático, um físico, um engenheiro geralmente está apto a criticar artigos sobre uma grande variedade de áreas diferentes da sua, já que em praticamente todas as disciplinas se utiliza Estatística, Método Científico, Matemática e Física, e raramente os especialistas em qualquer área fazem bom uso da Estatística, da Lógica e do Método Científico.

Recentemente minha namorada fez exames sobre a concentração de TSH e T4, num laboratório que é considerado o melhor da região e cujo resultado foi interpretado pelo melhor especialista da região. No laudo constava um intervalo de normalidade entre 0,46 e 4,9 mUI/L para o TSH, mas há vários estudos indicando que acima de 2,1 mUI/L já está fora da normalidade (2 desvios-padrão acima da média), sendo que os casos que incluem pacientes supostamente saudáveis com TSH até 4,9 mUI/L estão incorretos porque incluíram sujeitos sub-clínicos no estudo e acabam cobrindo uma faixa que chega a quase 5 desvios-padrão acima da média. Isso sem falar que a curva mais adequada para representar a distribuição dessa variável não é aderente a uma gaussiana, e precisariam fazer alguns testes de qualidade de ajuste, entre outros, antes de definir os critérios para estratificar os grupos patológicos, limítrofes e saudáveis.

Eu não conheço quase nada sobre Medicina, mas conheço um pouco de Estatística, e posso assegurar que há várias falhas graves na determinação desse intervalo de normalidade, e ao pesquisar um pouco, encontrei estudos confirmando minha opinião, embora a Organização Mundial da Saúde e outras entidades muito respeitadas continuem utilizando o intervalo de 0,5 a 5, ou similar. Este estudo encontrado pela Tamara também discute se o intervalo de normalidade recomendado pela Organização Mundial da Saúde é apropriado:
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-27302008000100022

Outro bom exemplo é meu livro sobre um novo e melhor método para cálculo de IMC, sem que eu seja especialista na área. Enfim, não é necessário ser especialista em determinada área para apontar erros cometidos por profissionais nessa área. Aliás, pode até ser uma vantagem ser especialista em outra(s) área(s), por enxergar sob um prisma diferente e reparar em detalhes que a maioria dos especialistas poderia desconhecer e negligenciar.

Entre os motivos menos óbvios, os autores do trabalho sobre a presença de fosfina em Vênus estão fortemente motivados a encontrar o que gostariam, o que representa um dos piores vieses na pesquisa científica, enquanto eu estou analisando com imparcialidade os fatos, com objetividade e sem envolvimento emocional com os resultados. O fato de eu adotar uma postura neutra, enquanto os pesquisadores (pesquisadoras) tinham alguns objetivos que gostariam de atingir, faz uma diferença imensa.

Basta se aprofundar um pouco em qualquer meta-análise sobre Biomedicina para verificar uma abundância alarmante de resultados contraditórios, o que denuncia os efeitos funestos dos desejos e das crenças pessoais dos pesquisadores sobre os resultados que eles encontram, seja pela seleção intencional de resultados convenientes, seja pela escolha dos rumos a serem seguidos na pesquisa de modo a tornar os resultados desejados muito mais promissores que os indesejados, distorcendo as probabilidades a favor do que se gostaria de encontrar.

Algumas empresas, ao contratar um profissional de Estatística, avisam o tipo de resultado que gostariam de obter, e lamentavelmente há diversos meios para se conduzir os experimentos de modo a forçar os resultados desejados. Há dezenas de ferramentas estatísticas com finalidades semelhantes, oferecendo ampla liberdade ao pesquisador para escolher aquelas que ele considera mais eficientes para encontrar resultados corretos, ou, se ele tiver vendido sua alma para alguma empresa, pode escolher aquelas que forcem os resultados desejados.

Pode acontecer também de a pessoa fazer isso inconscientemente, o que é muito comum em Biomedicina. Por isso se recomenda que os estudos sejam duplo-cegos, para minimizar o efeito placebo e reduzir o ruído causado pelas opiniões e crenças dos pesquisadores.

Há inclusive um acirrado debate na Matemática sobre isso, se a Matemática é uma descoberta ou uma invenção, se seria possível criar toda uma Matemática completamente diferente a partir de outros axiomas, e igualmente consistente, ou se os axiomas a partir dos quais nossa Matemática foi erigida formam o único corolário válido.

Antes das criações (ou descobertas) das Geometrias Lobachevskiana e Riemanniana, pensava-se que o 5º postulado da Geometria Euclidiana poderia ser demonstrado a partir dos 4 primeiros, mas o que se verificou é que na verdade seria possível criar duas outras geometrias igualmente consistentes se utilizasse um 5º postulado diferente do proposto por Euclides. Isso sugere que talvez toda a Matemática que conhecemos também possa ser completamente reformulada, se forem adotados alguns postulados diferentes.

As pessoas geralmente acham que o resultado de uma investigação científica é um fato incontestável, uma verdade absoluta, quando na verdade seria possível encontrar resultados muito diferentes, inclusive opostos, utilizando métodos igualmente bem aceitos como boas práticas científicas. Além disso, a interpretação dos resultados também oferece ampla margem para a formulação de teorias sensatas, outras nem tanto, e algumas completamente alucinadas.

A evolução dos estudos sobre a luz que culminaram com a Teoria da Relatividade Especial passou por diversas etapas muito interessantes, principalmente no século XIX, quando Fresnel e Strokes propuseram diferentes teorias sobre o éter. Então alguns dos mais proeminentes físicos experimentais testaram ambas as teorias e obtiveram resultados conflitantes, alguns corroborando a teoria de Fresnel, outros corroborando a teoria de Strokes, mas eram teorias claramente antagônicas, se uma delas fosse uma boa representação para a realidade, a outra não poderia ser.

Num dos experimentos conduzidos por Michelson, em 1886, o modelo de Fresnel fazia previsões teóricas de que o coeficiente de arrasto do éter seria cerca de 0,438 e o resultado experimental medido foi de 0,434, uma excelente aproximação que parecia confirmar as ideias de Fresnel, mas na verdade o éter nem sequer existe, quanto menos possui algum coeficiente de arrasto. Isso exemplifica muito bem como as crenças dos pesquisadores podem produzir resultados completamente irreais que confirmem suas crenças, inclusive medindo características de entidades que nem sequer existem.

É necessário deixar claro que os resultados de uma pesquisa, sobretudo quando não foi ainda confirmada por outros pesquisadores independentes, e foi interpretada por apenas um grupo, sendo que esse grupo pode ter algumas opiniões a priori, não se pode assumir que tais resultados sejam uma boa representação da realidade, e principalmente não se pode assumir que as interpretações propostas sejam razoáveis. Tais resultados devem servir como incentivo para que outros tentem investigar o mesmo fenômeno, outros com objetivos a priori diferentes, de preferência opostos, tentando refutar os estudos originais. E se mesmo assim os resultados continuarem a produzir dados conforme previsto pela interpretação inicial, isso pode indicar que a hipótese é plausível.

Desde que foi “descoberta” a força nuclear forte, sabe-se que existem 4 forças fundamentais. Nos anos 1990 foi descoberta uma 5ª força, depois uma 6ª força, que foram noticiadas com grande destaque nas principais revistas científicas, depois se verificou que eram erros experimentais e nenhuma dessas novas forças existia. Nos anos 1970 foi detectado um feixe de táquions, mas nenhum outro observador conseguiu reproduzir nas décadas seguintes, provavelmente porque foi falha nos instrumentos. Há poucos anos foram detectadas temperaturas abaixo de 0 K, foram descobertas estrelas com massa maior que o limite de Eddington, foram registrados sons viajando acima da velocidade da luz no vácuo e outras bobagens, que não passam de erros nas interpretações dos resultados, erros de medida etc. Mas as notícias foram publicadas com destaque, por serem espetaculosas e por anunciarem alguma falsa revolução no que se conhecia até então.

Por isso, quando se trata de pesquisas sobre vida alienígena, um tema que envolve pesada carga emocional, que influencia as opiniões e as crenças dos pesquisadores, ainda se está muito longe de alcançar a necessária imparcialidade para que os resultados preliminares possam ser encarados com seriedade.

Quase qualquer coisa difícil de se explicar acaba sendo pretexto para aventar a hipótese de vida alienígena. À medida que os experimentos são reproduzidos por investigadores mais neutros, mais rigorosos e com opiniões diferentes, constata-se os exageros que havia nos resultados iniciais. Isso se repete há décadas e cada vez com maior frequência, devido a diferentes tipos de incentivos, pois os convites para entrevistas, o número de papers aceitos para publicação, o número de livros vendidos etc. é muito maior para os defensores da existência da vida alienígena do que para os defensores da verdade factual.

A Nature certamente venderá muito mais exemplares com essa notícia sobre “possível vida em Vênus” do que se tivesse publicado o mesmo artigo descrevendo os processos mais prováveis que poderiam estar produzindo a fosfina, sem citar as palavras mágicas do sucesso comercial e do fracasso em credibilidade “possível vida alienígena”. Um título do tipo “Análises espectrais detectam mais uma substância na atmosfera de Vênus, que representa 0,000002% de sua composição, e ainda não se sabe como ela é produzida” seria muito mais correto e mais honesto, porém venderia muito menos e causaria bem menos alarde. Então eles pensam: vamos colocar algo no título citando de alguma forma a possibilidade de vida alienígena, embora a probabilidade de o resultado do estudo ter alguma relação com a presença de vida em Vênus seja muito menor que 1%, mas isso deve fazer as vendas crescerem muito mais que 100%, portanto é um bom negócio, embora seja má ciência.

De certa forma, a culpa não é da Nature, o artigo é interessante, bem escrito, aborda o tema sob vários aspectos, é muito informativo, portanto foi apropriado selecioná-lo para publicação. Também seria complicado culpar a Nature por escolher um título sensacionalista, pois quem mantém a revista viva são os leitores, e se os leitores preferem consumir sensacionalismo barato do que boa Ciência, a revista acaba sendo incentivada a atender a essa demanda, caso contrário ela acabaria falindo.

Esse é um cenário triste, em que uma boa revista, com uma boa equipe editorial, seja forçada a baixar o nível a esse ponto, devido à pressão de um público ávido por bobagens. Um dos problemas é que existem suficientes revistas para atender ao público interessado por futilidades, e não é bom que as raras revistas sérias acabem também se afundando nesse lamaçal para agradar a esse público.

Ninguém é obrigado a se interessar por Ciência, por Arte ou por qualquer área cultural, mas a partir do momento que uma revista escolhe um nicho para atuar, seria desejável que procurasse atender aos interesses do público que aprecia a área na qual ela propõe trabalhar, e manter um padrão de qualidade tão alto quanto possível, priorizando instruir o público e torna-lo cada vez mais apto a apreciar seus conteúdos.

Tirando esse detalhe, o artigo da Nature e a versão mais completa de Arxiv não estão ruins, embora haja vários pontos questionáveis, como o uso de um modelo teórico para a concentração dos gases por altitude, com base em pouquíssimos dados experimentais sobre as concentrações na superfície e em algumas poucas altitudes selecionadas, e poucas localidades de referência. Boa parte da interpretação sobre a concentração de fosfina ser maior que a esperada é dependente da acurácia desse modelo, mas esse modelo é muito inacurado. Seria necessário que houvesse uma extensa coleta de dados sobre as concentrações de substâncias compostas por hidrogênio e do próprio hidrogênio molecular em dezenas ou centenas de altitudes diferentes para que a curva de modelagem ficasse apropriada.

Além disso, seria preciso coletar dados em diferentes latitudes e longitudes do planeta, porque as concentrações numa localidade específica podem não ser as mesmas de outras regiões. Como a inclinação axial de Vênus é pequena e sua excentricidade orbital também é pequena, não haveria muita necessidade de analisar as variações nessas concentrações ao longo do ano, mas pelo menos durante alguns meses seria importante, já que a rotação das nuvens leva cerca de 6 dias, e para que as massas de gás possam se misturar de diferentes maneiras, bem como para ter uma ideia melhor sobre a heterogeneidade, heteroscedasticidade e anisotropia da distribuição dos diferentes gases e a evolução desses parâmetros em cada região ao longo do tempo. Isso exigiria que mais missões espaciais fossem enviadas a Vênus, algumas pousassem na superfície, outras permanecessem em órbita acima das nuvens e outras ficassem em suspensão nas nuvens. Sem estes dados, é temerário afirmar que as concentrações de PH3 observadas são maiores do que o esperado.

Outro ponto a ser discutido é que o modelo utilizado é mais simplificado do que deveria, no qual foi considerada uma temperatura média de 735K na superfície do planeta inteiro, quando na verdade há variações bastante grandes de uma região para outra, em função da latitude e da longitude. Há informações disponíveis sobre as condições climáticas nas diferentes regiões de Vênus e não entendi porque não levaram isso em consideração. Só consideraram as variações em função da altitude.

Um detalhe que não deve ser omitido nessa análise é que os autores (autoras) do estudo publicaram um artigo há cerca de 2 meses no qual apresentam um modelo detalhado sobre como a fosfina poderia ser produzida por organismos vivos, mas não publicaram artigos sobre nenhuma outra hipótese além desta, denunciando nitidamente o desejo de que o resultado esteja associado à ação de micro-organismos e, conforme comentei acima, isso acaba influenciando muito o resultado, tornando a pesquisa muito mais emocional do que deveria.

Se os autores estivessem conduzindo o experimento de maneira imparcial, seria esperado que tivessem publicado artigos discutindo primeiramente as hipóteses mais prováveis, ou analisando todas as hipóteses plausíveis. Em vez disso, publicaram analisando justamente uma das hipóteses menos plausíveis entre aquelas que chegaram a ser cogitadas. Essa escolha sobre o tema muito provavelmente influenciou várias outras decisões ao longo do estudo, forçando vários outros resultados conforme o que eles gostariam de encontrar.

Mais um ponto a ser considerado é que as moléculas de fosfina foram observadas a cerca de 55 km de altitude, onde a temperatura é cerca de 30ºC e a pressão é cerca de 0,53 atm. Há uma faixa muito estreita na atmosfera de Vênus em que a temperatura se mantém num patamar de temperatura “tolerável” para a vida e para moléculas complexas, mas devido à convecção as partículas (e organismos, se houvesse) seriam inevitavelmente levadas a percorrer todas as altitudes da atmosfera, e ao chegar nas regiões mais baixas e quentes, se houvesse alguma vida em algum momento naquelas massas de gás, esses gases seriam esterilizados, e no decorrer de poucas décadas ou séculos toda a atmosfera seria esterilizada.

Mas mesmo que não existisse convecção (o que estaria em desacordo com tudo que se conhece sobre Teoria dos gases) e a vida pudesse se manter exclusivamente naquela estreita faixa de temperatura “confortável”, ainda assim teria o problema da desidratação pelo H2SO4 e, em menor proporção, pelo HCl.

Claro que poderia haver alguma forma de vida completamente desconhecida, que suportasse condições como estas, mas nesse caso não faria muito sentido se basear em assinaturas biológicas inferidas a partir da vida tal como a conhecemos, como a presença de fosfina; organismos muito diferentes dos conhecidos deveriam produzir outras substâncias. Precisaria haver coerência na linha de argumentação. Por isso se a fosfina for tratada como marcador biológico, o tipo de vida que ela poderia estar associada seria destruída naquelas condições climáticas.

Outro problema é o aspecto quantitativo, ou melhor, a ausência dele: quando se considera a possibilidade de que a suposta presença de PH3 em alguns estratos da atmosfera de Vênus poderia ser interpretada como uma assinatura da presença de vida, sem especificar a probabilidade de que haja essa relação entre os resultados obtidos e a essa interpretação, fica parecendo aquelas notícias sensacionalistas de que Apophis ou Toutatis ou qualquer outro NEO colidirá com a Terra, quando na verdade a probabilidade de colisão é algo como 0,01%. Existe a possibilidade de colisão, e o que vende a notícia é justamente essa “possibilidade”, bem vaga, sem especificar a probabilidade numérica, porque se apresentar um dado mais concreto com uma estimativa numérica de probabilidade, a notícia não vende. Então ocultam o detalhe indesejável da notícia, sobre a probabilidade, e fica-se com uma ideia deturpada sobre a situação.

No caso da fosfina a situação é análoga. Fala-se em “possibilidade” de vida, sem citar qualquer estimativa de probabilidade. Quando se fala em probabilidade de 1% ou de 80% ou de 0,001%, a pessoa que lê a informação entende claramente o significado que a pessoa que escreveu teve a intenção de transmitir, e sabe se aquilo é algo que se possa esperar com uma probabilidade razoável ou se é algo extremamente improvável. Mas quando se fala em “possibilidade”, a pessoa que lê pode interpretar como qualquer coisa que ela queira e sua interpretação pode ser muitíssimo diferente do que a pessoa que escreveu teve a intenção de dizer. Nesse caso, a pessoa que escreveu pode ter pensado em algo como “menos de 0,01%” enquanto algumas pessoas que leram podem ter pensado em algo como “50%”, algumas em “80%” ou até mais.

Claro que há muitas incertas nos valores de algumas variáveis necessárias ao cálculo e por isso seria muito difícil estimar uma probabilidade desse tipo, mas não impossível. A equação de Drake, por exemplo, é extremamente imprecisa e especulativa, mas ele tentou estimar as probabilidades numéricas, para permitir que se tivesse pelo menos uma ideia aproximada sobre as ordens de grandeza envolvidas. Algo semelhante poderia ser feito nesse caso, para tentar determinar pelo menos a ordem de grandeza, para não ficar tão infinitamente vago quanto a palavra “possibilidade”, que pode indicar qualquer coisa entre x e 1/x, para x tendendo ao infinito.

Se estreitasse o intervalo de probabilidade para algo entre 0,00000000000000001% e 99,9999% já seria comparativamente menos vago do que usar a palavra “possibilidade”. A palavra “possibilidade” admite qualquer bobagem imaginável, inclusive a existência de duendes, de planetas planos etc., pois tudo que não é demonstrado como impossível fica no conjunto do que é possível.

O uso da palavra “possibilidade” deveria ser erradicado da Ciência. Deveria ser muito proveitosamente substituída por “probabilidade de x%”. O termo possibilidade permite que se sustente qualquer tese insana, desde que ela não seja completamente impossível.

No caso desse estudo, uma probabilidade de 10% seria muito diferente de 0,01%, e nessa situação está muito claro que 10% seria uma superestimativa imensamente otimista, mas a grande maioria que recebe a notícia deve pensar em algo bem acima de 10% e quase todos devem pensar em algo acima de 1%, quando na verdade deve ser menor que 1%. Mas ao trocar essa estimativa numérica por uma palavra com significado vago como “possibilidade”, abre-se um leque quase ilimitado de possibilidades e degrada-se a qualidade da informação sobre a real probabilidade de que determinada hipótese seja uma representação satisfatória para os fatos observados.

Por fim, gostaria de comentar um pouco sobre a postura dogmática que a grande maioria das pessoas adota em relação à Ciência e respeitam a autoridade de algumas instituições como respeitavam a religião na Idade Média. Se algo foi dito pela NASA, então deve ser verdade, pensa a maioria. Não procuram entender o que foi dito, se faz sentido, se é plausível, do mesmo modo que faziam em relação às declarações da Igreja. Isso se deve, em parte, ao sucesso da Ciência, mas a partir do momento que as instituições científicas abusam dessa credibilidade para disseminar fantasias improváveis, vão gradualmente perdendo credibilidade.

A NASA é uma das instituições científicas mais importantes da atualidade e de toda a história da humanidade, talvez seja até a mais importante, mas não está isenta de falhas e “truques” publicitários, alguns dos quais muito condenáveis.

Aos defensores incondicionais da NASA, ESA, MIT, CIT, CERN, Fermilab etc., convém lembrar que a NASA tentou, por diversos meios, ocultar as estimativas fraudulentas sobre os fatores principais que causaram o acidente com o Challenger, em 1986, com grosseiras subestimativas dos reais riscos envolvendo os ônibus espaciais, que eram cerca de 1/35, mas eles diziam ser de 1/100.000! Na época da investigação, Feynman mostrou que era algo da ordem de 1/100, mas tentaram fazê-lo calar, bem como tentaram dificultar suas investigações, porque há muito dinheiro envolvido nos financiamentos de projetos, e esse tipo de acidente por negligência costuma prejudicar os orçamentos, enquanto anúncios de vida alienígena costumam engordar os orçamentos.

O acidente com o Challenger não foi um caso isolado, mas foi um dos mais famosos. Quem leu e/ou assistiu a história que relata o envolvimento de Feynman com esse acidente, sabe bem de que estou falando. Se até mesmo a NASA, que talvez seja a mais respeitável das instituições científicas, incorre em algumas dessas vicissitudes, o que se pode esperar das outras instituições?

Que fique claro, não estou dizendo que a NASA seja uma entidade sem credibilidade. Ao contrário. Se considerada como um todo, é uma instituição séria, formada por pessoas competentes e honestas, mas quando se trata de fazer publicidade para conseguir mais verbas, o que se tem observado é que ao longo das últimas décadas ela tem cada vez mais cedido à “tentação” de adotar as decisões mais promissoras comercialmente.

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