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Diagonais Crônicas de Xadrez, de Hélder Câmara

O livro sobre o qual pretendo falar hoje consiste numa coletânea de partidas comentadas do MI Hélder Câmara, chamado “Diagonais Crônicas de Xadrez”, e aproveito para fazer mais uma homenagem póstuma ao saudoso amigo.

Hélder Câmera é sobrinho do Arcebispo Dom Hélder Câmera; por ter nascido no dia do aniversário de seu tio, recebeu o mesmo nome. Foi bicampeão brasileiro, 4 vezes vice-campeão brasileiro e integrou a equipe olímpica brasileira em 6 ocasiões. Esse detalhe de 4 vezes vice pode parecer pouco, mas muitas vezes é um pequeno detalhe que separa o 1º do 2º colocado: uma seta caída em posição ganhadora, ou um pequeno descuido, e o título escorrega por entre os dedos. Por exemplo: João de Souza Mendes foi 7 vezes campeão brasileiro, mas analisando suas partidas e as do Hélder, minha impressão é de que as do Hélder tinham nível técnico sensivelmente mais elevado. Claro que o fato de o Hélder ter alcançado seu apogeu num período posterior, em que a compreensão do jogo era melhor, também influi, mas além de demonstrar um jogo posicional superior, Hélder também se mostrava taticamente mais forte.

Foi um dos primeiros brasileiros a conquistar o título de MI, numa época em que havia apenas 2 MI no Brasil. Estabeleceu o recorde brasileiro em número de adversários numa simultânea às cegas, ao jogar contra 12 oponentes no Jacarepaguá Tenis Club, em 1965. Há algumas reivindicações de Antonio Rocha (12 e 15) e Josino Rezende (12), que teriam superado ou igualado esse recorde, mas não há registros que corroborem estas alegações. Hélder é o único brasileiro autor de uma defesa (Defesa Câmara, registrada na ECO como “Defesa Brasileira”) e foi colunista no Diário Popular e Diário de São Paulo por mais de 30 anos.

Nos anos 1980, foi assíduo frequentador do CXSP (o “Café de la Régence” brasileiro), onde se reunia com os amigos e ficava analisando partidas, formando-se uma rodinha em volta para apreciar seus ensinamentos e se divertir com suas piadas e comentários espirituosos.

Hélder Câmara não foi apenas um grande jogador e comentarista, mas também uma excelente pessoa e um grande entusiasta do Xadrez. Tenho ainda hoje guardadas várias relíquias que ganhei de presente dele: uma de suas canetas favoritas, um relógio raro construído pelo Vince Toth (pai do MN Peter Toth, avô do MI Christian Toth), um conjunto de peças indianas no padrão Staunton, um tabuleiro italiano, uma maleta da USCF de guardar peças, tabuleiro e relógio, este livro com uma dedicatória, outros presentes materiais e, principalmente, muitos ensinamentos sobre Xadrez e sobre a vida.

Quando comecei a jogar Xadrez, em 1986, a Internet era utilizada quase exclusivamente pelo Governo, Universidades e outras grandes instituições. As pessoas em geral ainda não tinham acesso a essa tecnológica. Em 1989, a Telebrás disponibilizou o serviço “VTX”, um tipo de BBS primitiva em que o computador era alugado. A empresa onde meu pai trabalhava assinou este serviço por um ano, mas nem de longe se compara à Internet. Havia os conteúdos incompletos de algumas revistas e jornais, alguns jogos, mas nada de Xadrez. O contato que tínhamos com nosso esporte era por meio das colunas do Hélder e do Herman, eventualmente com algum trabalho freelance do Herbert. Havia poucos livros em português também.

As colunas do Herman divulgavam os resultados de eventos e diagramas. A coluna do Hélder tinha partidas comentadas de algum evento recente. Ambas eram inestimáveis fontes de informação que os enxadristas acompanhavam com grande interesse. Numa época em que ainda não havia boas engines de Xadrez, além de os preços dos computadores serem exorbitantes, era o único meio de se ter acesso às partidas mais recentes, com análises de alto nível, e ainda por cima com vários comentários descontraídos e interessantes.

Minha tia me trazia o jornal quando voltava da padaria, eu separava a coluna de Xadrez, montava o tabuleiro sobre o tapete, me sentava no chão e começava a desfrutar, lance a lance, aquelas preciosidades. Não havia gigantescas bases de dados com milhões de partidas para escolher. Aquela era a única partida da semana, cuidadosamente escolhida pelo Hélder, por isso repassava os lances várias vezes, tentando encontrar algo que pudesse ter passado despercebido na análise anterior, eventualmente tentando refutar os jogadores ou o analista. No dia seguinte, às vezes analisava novamente, para compreender melhor algum detalhe.

Cada partida era um duplo show: a partida em si, sempre muito bem selecionada, e os comentários, que combinavam técnica e poesia. Ao longo de décadas, a coluna do Hélder acabou reunindo tantas partidas interessantes e agradáveis que fica difícil escolher uma para ilustrar esse texto. Mas acho que minha favorita foi a última vitória de Tal, em maio de 1992, frente ao GM Vladimir Akopian, que em 1986 havia sido campeão mundial de cadetes, pouco à frente do GM brasileiro Everaldo Matsuura, que ficou em 3º/4º naquele mundial, sendo o primeiro brasileiro a obter uma classificação desse nível (excetuando o Mequinho).

A partida em si não é tão espetacular quanto outras criações de Tal, mas são dois detalhes que fazem dela uma partida sui generis:

1. Tal estava doente, intercalando sessões de hemodiálise com sua participação neste torneio, chegou à sala de jogos carregado, numa cadeira de rodas, enquanto Akopian estava no auge de sua força e precisava da vitória para vencer o torneio, pois esta era a última rodada. Tal era um lutador incansável, mas dadas as circunstâncias, propôs empate antes do jogo, para que pudesse retornar a seu repouso. Akopian recusou. Então começaram o embate. Depois de uma acirrada batalha posicional, Tal foi acumulando várias pequenas vantagens até conseguir uma posição estrategicamente vencedora.

2. Akopian, vendo-se numa posição sem esperanças, decidiu criar complicações táticas para tentar escapar. Então Hélder comenta: “Akopian levou um banho estratégico e agora apela para as complicações táticas, como alguém que perde uma discussão verbal com Mike Tyson e decide partir para a ignorância...”

Como disse o rei da França Louis XVIII “Um rei deve morrer de pé”, e para completar, o último lance de Tal na última partida de sua vida foi “Re1”, recolocando o Rei em sua posição original, então Akopian abandonou. Das cinzas às cinzas, do pó ao pó. O simbolismo nessa partida é impressionante, como se todos os detalhes tivessem sido meticulosamente planejados para finalizar com essa cena shakespeariana. Tal, numa cadeira de rodas, venceu com louvor, produzindo um clima de comoção que arrancaria lágrimas até dos mais rudes espectadores, uma história real que daria um filme de primeira linha. No mês seguinte, em 28 de junho, o Mago de Riga faleceu, deixando uma lacuna irreparável.

Fiquei na dúvida se deveria copiar esta partida com os comentários do Hélder, mas achei melhor manter o suspense para incentivar as pessoas a adquirirem o livro. Espero que desfrutem tanto quanto eu o desfrutei.

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