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24 de Dezembro de 2018

Mensagem de Natal, Hănukkāh, Ramadã, Saturnália

Por Hindemburg Melão Jr.

O Natal talvez seja a data mais comemorada no Brasil e no mundo. A data correta em que Jesus nasceu é desconhecida. Há muitas divergências sobre o mês e o ano, mas a maioria dos historiadores concorda que datas prováveis são entre março e maio. O ano deve ter sido entre 4 a.C. e 7 a.C. Não pode ter sido depois de 4 a.C. (759 da fundação de Roma) porque Herodes faleceu nesse ano. Se deixar de lado os esforços para associar o nascimento de Jesus com algum evento astronômico que possa ser relacionado como a estrela de Belém, e interpretar essa passagem como alegórica, então a conjunção entre Júpiter e Saturno ocorrida em 7 a.C. pode ser descartada e fica-se com datas entre 6 a.C. e 4 a.C. como intervalo mais provável.

 

A comemoração do Solstício, em dezembro, é uma prática comum em muitas culturas antigas, que associavam essa data ao nascimento de diferentes divindades: Rá, Mitra, Helios, Apolo, Surya, Baal, Amaterasu, Apis, Aton, Aryaman, Horajti, Bhaga. Em 273 d.C., o imperador Aureliano decretou 25 de dezembro o “Aniversário do Sol Invencível” (Natalis Solis Invicti). Apolo era considerado o “Sol Invencível”.

 

Em 313, o imperador Constantino se converteu ao Cristianismo e em 13 de junho do mesmo ano promulgou o Édito de Milão, legalizando o Cristianismo. A partir de então, a Igreja Católica ganhou muita força e começou a promover a fusão dos cultos pagãos com os cristãos. Como já havia uma forte tradição de comemorar a Saturnália nessa época, foi mais conveniente ajustar o calendário litúrgico e aproveitar uma data comemorativa pré-existente do que tentar celebrar uma data nova. Assim, a data 25/12 foi estrategicamente escolhida pela Igreja com o propósito que substituir a Saturnália romana e facilitar a conversão de pagãos ao Cristianismo. Portanto o Natal não é uma data que se perverteu ao longo da história e passou a servir a propósitos comerciais. Desde sua instauração, foi planejada com fins políticos e comerciais.

 

Não obstante essa origem nebulosa e controversa, o Natal acabou se transformando numa data de confraternização, solidariedade, paz e fraternidade. O simbolismo dessa data se tornou tão poderoso que durante a Primeira Guerra Mundial houve uma “trégua” iniciada em 24/12/1914 entre solados britânicos e alemães, que durou cerca de 6 dias. Durante o julgamento de Nurenberg, os prisioneiros nazistas tiveram a oportunidade de celebrar juntos o Natal. A Lei Brasileira estabelece o indulto de Natal, que consiste na extinção da pena de alguns presidiários que atendam a determinados quesitos. Além do indulto, também ocorre a “saída temporária”, que beneficia uma quantidade maior de detentos, e lamentavelmente coloca em risco boa parte da população.

 

O espírito natalino poderia ser maravilhoso se todas as pessoas o incorporassem, não apenas no Natal, mas durante o todo tempo. O grande problema é quando algumas pessoas se deixam comover pelos sentimentos cultuados nessa época, enquanto outras se aproveitam dessa comoção para tirar vantagem. Em 2017, um dos presidiários beneficiados com a saída temporária estuprou duas mulheres.

https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/preso-em-saida-temporaria-invade-salao-de-beleza-e-estupra-cliente.ghtml

 

Orgias regadas a sexo e álcool eram tradição nessa época. Saturnália era um festival romano em homenagem a Saturno e Baco, que ocorria em 17 de dezembro no calendário juliano e, mais tarde, passou ser estendido até 23 de dezembro. Era celebrado com um sacrifício no Templo de Saturno, com um banquete público, seguido de troca de presentes, danças sensuais e “diversão” sem limites.

 

Ramadã é o nono mês do calendário islâmico, no qual a maioria dos muçulmanos pratica o seu jejum ritual (saum, صَوْم). É considerado um período de renovação da fé, da prática da caridade, um período de fraternidade e exaltação dos valores familiares. Embora tenha significado similar ao do Natal Cristão, as datas nas quais se comemora não coincidem. Em 2018 foi celebrado em entre 16/5 e 14/6. Em 2019 será entre 6/5 e 4/6.

 

Hănukkāh (חנכה) é uma festa judaica que começa após o pôr-do-sol do 24º dia do mês Kislev e é comemorada por oito dias. Em 2018, Hănukkāh foi comemorado entre 3 a 10 de dezembro. Em 2019 será entre 23 a 30 de dezembro. Isso acontece porque os calendários judaico e islâmico são lunares, com 12 a 13 meses por ano, e não são isócronos aos calendários solares, pois cada mês lunar (período sinódico lunar) tem cerca de 29,530589263 dias, enquanto o ano solar (tropical) tem cerca de 365,242074416 dias solares médios. Como 365,242074416 não é múltiplo inteiro de 29,530589263, os calendários lunares tentam ajustar cada período de 19 anos tropicais com 235 meses sinódicos, pois 235 meses sinódicos correspondem a quase exatamente 19 anos tropicais (19,00024385 anos). Para que cada ano tenha um número inteiro de meses, o calendário lunar intercala períodos de 12 e 13 meses até completar 235 meses em 19 anos.

 

Esse ajuste é importante devido à Agricultura, que depende das estações do ano, que, por sua vez, depende da duração do ano tropical, que é o intervalo entre dois equinócios vernais consecutivos. É importante não confundir com o ano sideral, que é o intervalo entre duas passagens consecutivas da Terra pela mesma longitude heliocêntrica, isto é, o tempo necessário para que a Terra dê uma volta completa em torno do baricentro do Sistema Solar tomando por referencial estático o “cenário de fundo” de “estrelas fixas”, cuja duração é cerca de 365,256363004 dias.

 

Essa diferença entre a duração do ano trópico e a do ano sideral é responsável pelo fenômeno da precessão dos equinócios, que exigiu a reforma do calendário Juliano (para o Gregoriano) em 1582, para evitar que o calendário civil continuasse acumulando atrasos em comparação ao calendário agrícola. Também é importante não confundir a precessão dos equinócios com a precessão dos periélios ou anomalística, que teve um papel importante na corroboração da Teoria Geral da Relatividade, ao constatar que a precessão no periélio de Mercúrio era cerca de duas vezes maior do que a prevista com base na Teoria da Gravitação de Newton, e muito acuradamente semelhante à precessão prevista pela Teoria da Relatividade Geral.

 

O função primordial dos calendários, na época em que foram criados, era determinar os períodos adequados para plantio e colheita, e a determinação da duração do ano sideral é comparativamente mais fácil do que a determinação da duração do ano tropical. Como os dois períodos são muito semelhantes, inicialmente não se sabia que tinham durações diferentes. Aristarco, em cerca de 270 a.C., foi o primeiro a notar essa diferença.

 

Todos esses períodos variam sutilmente ao longo do tempo, devido à perturbações gravitacionais mútuas dos diversos corpos do Sistema Solar, especialmente dos planetas jovianos, devido à perda de massa do Sol com a fusão nuclear, devido a perturbações gravitacionais causadas por objetos fora do Sistema Solar, devido a colisões com asteroides e cometas, entre outros fatores. Alguns desses processos dependem de fatores aleatórios e isso torna difícil determinar em que medida alteram a duração desses períodos. Outros processos são predominantemente determinísticos e seus efeitos de curto e médio prazo podem ser calculados com base nos modelos teóricos vigentes. Também é possível estimar o efeito combinado dos fatores aleatórios e quase determinísticos, com base na observação empírica dessas variações ao longo dos séculos.

 

No caso do ano tropical, por exemplo, a equação para determinar a duração aproximada do ano tropical é considerando como data de início o dia 1/1/2000, às 12h, quando a duração tomada como referência é 365,2421896698 dias, e a partir de então soma-se os seguintes termos:

P = P(0) + aT + bT^2 + cT^3

 

Onde P é o período tropical no qual se deseja determinar a duração do ano tropical. Por exemplo: 25/12/2018. P(0) é o ano tropical de referência, às 12h de 1/1/2000. T é o tempo transcorrido, em anos, desde a data de referência até a data na qual se deseja calcular o valor de P. E as constantes a, b, c têm, respectivamente, os seguintes valores:

 

a = -6,15359 x 10^-6

b = -7,29 x 10^-10

c = 2,64 x 10^-10

 

O Natal Cristão, tal como é interpretado atualmente, assemelha-se mais ao Hănukkāh e ao Ramadã do que à Saturnália, que lhe deu origem. A data, em si, não importa tanto, mas o sentimento e o pensamento que essa data deveria inspirar fazem dela uma data especial.

 

Em 2016, passei o primeiro Natal sem minha mãe. Enquanto ela era viva, nos dias que antecediam essa data, fazíamos algumas atividades em orfanato, asilo, hospital... Também na Páscoa, Dia das Crianças e em algumas outras ocasiões (como nos meses mais frios, a distribuição de cobertores). Depois que ela faleceu, tenho feito isso sozinho.

 

Nesse ano está sendo diferente, a Tamara comentou que ela também costumava fazer atividades filantrópicas. Fomos juntos ao Lar da Criança Irma Júlia e à ala infantil da Santa Casa, vestidos de Mulher Maravilha e Super-Homem, levar chocolates e refrigerantes para as crianças, no Dia das Crianças. Também fomos fora da data. Não há uma data específica para tais coisas. Todos os dias são especiais quando deseja disseminar o Bem.

 

No Natal ainda não sabemos exatamente o que faremos. A Tamara sugeriu comprar exemplares de algum livro infantil para distribuir às crianças. Sugeri “Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica”, mas ela achou melhor “O pequeno príncipe”.

 

Fomos ao correio e vimos algumas cartas de crianças com pedidos ao Papai Noel, mas achei os pedidos vulgares e alguns até abusivos. Eu gostaria de encontrar alguma carta que indicasse nobreza, que pedisse uma cadeira de rodas para a avó ou algo parecido. Em vez disso, pediam iPad, bicicleta, videogame...

 

Não vejo nenhum problema em pedir essas coisas aos pais, porém pedir a estranhos, me parece uma conduta imprópria. Eu acharia justo se pedissem algo que não fosse para si mesmas e que atendesse a alguma necessidade fundamental, como saúde ou educação. Pedir a desconhecidos algo para diversão e algo supérfluo me causa péssima impressão e acho que os pais deveriam educar os filhos para não agir assim, em vez de os incentivar a fazer isso. Os pais deveriam orientar os filhos para estudar e conquistar por meio do próprio esforço essas coisas, e talvez pedir ajuda para esse processo de aquisição de conhecimento e de competências.

 

Fiquei profundamente decepcionado com a futilidade dos pedidos. Lembro-me de uma vez que perguntei ao amigo Rafael Zakowicz, se ele pudesse fazer um pedido a Deus, com a certeza de que seria atendido, o que ele pediria, e ele respondeu que pediria para que todas as pessoas do mundo fossem felizes. Achei uma resposta muito boa. Embora seja um pedido especista, que discrimina todos os outros animais, alienígenas e entidades senscientes que vivem fora do mundo, me pareceu mais nobre que a grande maioria dos pedidos, e eu ficaria muito satisfeito se encontrasse uma carta com pedido semelhante.

 

Apesar disso, pretendemos voltar ao correio mais perto do Natal e tentar escolher pelo menos uma carta.

 

Há alguns meses, o amigo João Antonio comentou que fazia parte de alguns grupos de altruísmo eficaz. Logo em seguida, pesquisei sobre estes grupos, encontrei alguns no Facebook e me inscrevi. Apesar do nome “eficaz”, me pareceram inativos. Talvez os integrantes dos grupos promovam atividades independentes. Eu esperava que esses grupos reunissem e coordenassem pessoas para atuar em conjunto, bem como promovessem debates para identificar quais problemas relevantes deveriam ser analisados e quais as formas mais eficientes para solucionar esses problemas.

 

Minha impressão é de que as pessoas ingressam nesses grupos com boas intenções, porém não tomam atitudes concretas e não procuram otimizar a oferta de tempo e recursos para maximizar os benefícios gerados. Na maioria dos casos, não existe um empenho sincero em promover o Bem, mas sim em obter algum um alívio de consciência, em que a pessoa faz qualquer coisa aleatória para alimentar a ilusão de que “fez sua parte”.

 

Na peça de teatro do amigo Paulo Santoro “O canto de Gregório”, que foi muito aclamada pela crítica na época em que foi exibida, com três indicações ao prêmio Shell de Artes Cênicas, o autor trata de um tema interessante: quando uma pessoa faz o bem a outra, ela faz isso pensando no bem da outra ou no bem de si mesma? Quando a pessoa vê um mendigo faminto e oferece comida a ele, a pessoa está preocupada com o mendigo ou preocupada com o que ela própria vai sentir se ela não fizer algo?

 

Essa é uma questão complexa de se analisar, e mais complexa ainda de se lidar na prática, porque se a motivação de fazer o Bem é um sentimento “egoísta”, em que a pessoa está mais preocupada com sua própria sensação de alívio, de evitar se sentir culpada por omissão, do que com o alívio que ela proporciona a outras pessoas ou outras entidades, então em que medida isso desvirtua o ato?

 

Em meu artigo “Liberdade e Direitos”, abordei alguns temas similares, mas aqui procurarei não ser repetitivo com o que já disse lá.

 

Há diferentes níveis em que se pode promover o Bem. Esses níveis podem ser medidos em termos práticos e em termos meritocráticos. Por exemplo: se uma pessoa salva um cachorro de ser atropelado, pensando no bem do cachorro, é diferente de salvar o cachorro pensando em ser exaltada por seu ato heroico. Sob o ponto de vista prático, ambas as ações produziram mesmo resultado imediato, porém sob o ponto de vista meritocrático, o gesto de salvar o cachorro pensando no bem do animal é mais valoroso.

 

Embora o efeito de curto prazo possa ser indiferente, se a pessoa faz o Bem pensando no Bem em si, ou se o faz pensando em alguma recompensa, seja na forma de imagem ou alguma outra, o efeito de longo prazo é muito diferente, porque se a pessoa faz o Bem motivada por vaidade ou por outros motivos levianos, ao longo do tempo essa pessoa vai construindo uma reputação que atrairá seguidores e imitadores, ela servirá de exemplo e influenciará a conduta de muitas outras pessoas, e se ela não for essencialmente boa, fatalmente ela terá muitos pensamentos, declarações e atitudes ruins, que se propagarão por meio das pessoas que a admiram. Portanto, mesmo que a curto prazo possa parecer que não há diferença se a pessoa faz o Bem pelo Bem em si, ou se faz o Bem esperando algo em troca, as consequências a longo prazo serão muito diferentes.

 

Outra questão complexa é quando a pessoa tenta fazer o Bem, mas devido a limitações em sua capacidade de discernimento, acaba agindo de maneira inadequada. No artigo supracitado “Liberdade e direitos”, citei o caso de Madre Teresa, que fazia o bem indiscriminadamente, ajudando tanto as pessoas boas, que mereciam e que multiplicavam esse bem, quanto as pessoas más, que não mereciam e que propagariam o mal.

 

Em alguns casos, talvez Madre Teresa conseguisse comover criminosos, que se sensibilizavam com o gesto dela e deixavam de praticar o mal. Mas mesmo se levar em conta os casos que isso acontecia, o fato é que evitar que um criminoso continue a praticar o mal não representa um bem tão grande quanto incentivar uma pessoa boa a praticar o Bem e dar a essa pessoa subsídios para isso. Inclusive porque a pura e simples condenação à prisão e ao trabalho forçado, pode ser uma alternativa menos onerosa para lidar com o problema do criminoso, e com maior probabilidade de sucesso de afastá-lo do convívio social e proteger a comunidade de suas práticas nocivas.

 

Além disso, o tempo e os recursos direcionados por Madre Teresa à ajuda do criminoso poderiam ser mais proveitosamente direcionados ao auxílio de pessoas boas. Isso levanta outra questão: como identificar corretamente as pessoas boas. A identificação correta de pessoas genuinamente boas é muito mais difícil do que parece, por isso acaba sendo mais simples praticar o bem indiscriminadamente.

 

Quando Bill Gates faz doações multimilionárias, esses recursos atingirão muitas pessoas que não merecem receber qualquer apoio. Em alguns países no Sul da África, 15% da população é portadora do HIV, mais de 50% das mulheres se prostituem para ter o que comer, a opressão, o abuso sexual, físico e moral fazem parte do cotidiano das pessoas. Doações destinadas a esses países terão altíssima probabilidade de beneficiar estupradores, agressores e opressores. Aliás, é muito mais provável que estas doações cheguem às mãos dos opressores, agressores e estupradores do que às mãos das vítimas, que por serem mais fracas, acabam ficando à margem da margem.

 

Mesmo no Brasil, que é comparativamente mais civilizado do que o Sul da África, quando ocorrem desastres e a região afetada recebe doações, grande parte dos recursos que chegam é desviada. Em 2008 e 2009, quando promovemos alguns projetos de assistência às vítimas dos deslizamentos em Itajaí, Florianópolis e outras cidades de Santa Catarina, algum tempo depois minha mãe comunicou que havia visto na TV denúncias sobre pessoas que estavam furtando as doações que chegavam, e eram pessoas que nem haviam sido afetadas pelos deslizamentos.

 

Isso acontece quando não se tem controle sobre o destino das doações, quando não se entrega as doações diretamente às pessoas que precisam. Mas entregar em mãos resolve só uma parte do problema, porque as pessoas que precisam não são necessariamente pessoas que merecem.

 

O ideal é tentar selecionar os beneficiários. Embora isso seja muito difícil e haja risco de falhas no processo de seleção, os resultados devem ser, em média, melhores do que fazer doações aleatórias. Mas então surge outro problema: a seleção eficiente precisa de análises demoradas e complexas, com base em informações que geralmente não estão acessíveis, o que demanda um tempo considerável, por isso é necessário avaliar em que medida o tempo dedicado ao processo de seleção compensará o resultado que seria obtido por meio de doações aleatórias.

 

O ideal seria se houvesse toda uma estrutura séria, bem-intencionada e competente, de pessoas trabalhando voluntariamente e com prazer, doando seu tempo, organizando atividades, recebendo doações e distribuindo honestamente entre as populações carentes e merecedoras. Há muitos projetos que tentam identificar pessoas que precisam de assistência, mas poucos projetos que tentam identificar quem merece e precisa.

 

Eu não gostaria de envolver política nesse artigo, mas é quase inevitável. O bolsa-família, por exemplo, tem algumas virtudes e algumas vicissitudes. A distribuição direta, sem intermediários, é positiva, porque evita custos desnecessários, agiliza o processo, reduz o risco de extravio e corrupção, etc. Porém não envolve uma triagem por méritos. O simples fato de matricular a criança numa escola não representa, por si, um mérito. É diferente de programas como o ProUni, que muitas pessoas criticam, mas que se aproxima um pouco mais do que acho apropriado. A pessoa precisa demonstrar qualificação combinada à carência de recursos. Seria melhor que a pessoa demonstrasse também boas intenções, pensamentos e atos solidários, projetos de futuramente trabalhar visando o bem comum etc.

 

A pessoa que recebe o Bem precisa ser selecionada de tal maneira que ela não se limite a consumir aquele benefício para si mesma. Ela precisa consumir, aumentar, multiplicar e redistribuir o Bem a outras pessoas que façam o mesmo, gerando um processo em cadeia que atingirá grande quantidade de pessoas. Quando o benefício é destinado a uma pessoa que não o multiplica nem o redistribui, a propagação é interrompida e o número de pessoas alcançadas é muito menor.

 

Uma mesma doação de uma bolsa de estudos a duas crianças diferentes, criança A e criança B, pode gerar resultados completamente diferentes, dependendo da mentalidade dessas crianças, dos objetivos dessas crianças, do caráter dessas crianças. Por isso é muito importante selecionar quem receberá a oportunidade, de modo a maximizar as probabilidades de que o beneficiário futuramente crie oportunidades para outras pessoas e continue a disseminar o Bem.

 

Nesse Natal pretendo ir com a Tamara ao Lar São Vicente de Paulo, ao Lar Irma Júlia, à Santa Casa, levar livros, lápis de cor, chocolates, panetones. Também pretendo dar panetones ao pessoal da segurança do condomínio, dar um presente especial ao Renato, que cuida da piscina e do jardim, e à sua esposa, panetones aos funcionários da oficina do Carmo Betim, que cuidam dos carros, e penso em promover algum concurso on-line, oferecendo um prêmio a ser utilizado para patrocinar o melhor projeto assistencial apresentado.

 

Como mensagem final, gostaria de desejar a todos um Feliz Natal, com sabedoria, saúde e felicidade. Que todos os seus sonhos que forem bons e justos se realizem, e os que não forem bons e justos evoluam até que se tornem dignos de também serem realizados. Que o significado dessa data se perpetue por todos os dias do ano, todos os anos, e que cada um faça nesse dia, assim como em qualquer outro dia, o melhor que puder para construir um mundo melhor.

 

Muito mais importante do que dar presentes materiais às crianças é dar a elas boas orientações sobre como pensar e como agir, ensinar a elas os princípios básicos da Ética, e dar a elas um modelo a ser seguido. Citei como exemplo as crianças, porque são mais versáteis, mais receptivas, mais “educáveis”. Mas o mesmo vale para os adultos, familiares, amigos, colegas, desconhecidos, a todos convém levar palavras de orientação e esperança.

 

Orientar não é dizer às pessoas o que elas devem fazer, com base no que nós achamos. Orientar é mostrar às pessoas como elas podem analisar os fatos e elas próprias podem deduzir o que deve ser feito. Orientar é ajudar a estimar as prováveis consequências que se pode esperar de determinadas ações. Orientar não é dar respostas prontas, mas sim apresentar dúvidas, despertar a curiosidade pelo conhecimento e mostrar métodos de investigação capazes de conduzir a respostas adequadas a essas dúvidas, respostas amparadas pelos fatos e pela lógica.

 

Orientar não é carregar a criança no colo. É ajudar a criança a descobrir como caminhar com as próprias pernas, a compreender os processos mecânicos da locomoção e criar novos meios de transporte mais eficientes que as pernas e do que as asas. Orientar é ensinar a pensar, a descobrir, a inventar, a crescer, evoluir para um estágio mais elevado de consciência e de sentimento. Orientar é contribuir para que cada pessoa faça sua parte, respeitando a Natureza, respeitando-se umas às outras, cada pessoa respeitando-se a si mesma, e todas construam um mundo cada vez melhor.

 

O primeiro passo pode ser agora. Em vez de tratar o Natal como um data qualquer, comece tratando todas as datas quaisquer como se fossem o Natal.