CIENTISTAS ENCONTRAM UNIVERSO MULTIDIMENSIONAL NO CÉREBRO

Por Hindemburg Melão Jr.

De tempos em tempos, é publicada alguma bobagem bizarra em alguma revista (pseudo)científica, que acaba sendo propagada inadvertidamente, alcançando proporções maiores que a disseminação do COVID-19, embora com consequências menos graves. Para piorar a situação, várias outras revistas copiam a bobagem e exageram ainda mais. Foi assim com a imagem inferida a partir da análise interferométrica de longa linha de base da região mais densa do halo de acreção em torno do suposto buraco-negro situado na região central da galáxia M87, anunciado como “primeira fotografia de um buraco-negro”, o que é multiplamente incorreto, porque não é uma fotografia, não é de um buraco-negro e não é a primeira vez que se faz isso, pois já haviam sido produzidas imagens com mesma técnica do disco de acreção de Sagitarius A*, por exemplo. (O asterisco não é para informar que vou colocar alguma nota de rodapé a respeito. O asterisco é um padrão adotado para assinalar que o objeto é um candidato a buraco-negro). 
 
Para mais detalhes sobre a palhaçada da “fotografia” do buraco-negro, sugiro estes artigos (é recomendável a leitura seguindo a ordem): 
 
https://www.saturnov.org/fotoburaconegro 
https://www.saturnov.org/buraconegro 
https://www.saturnov.org/einsteinestavacerto 
https://www.saturnov.org/filippenkoburraconegro 

 
Assim como no caso da interferometria de longa linha de base do toro de acreção em torno do objeto massivo escuro situado na região central da galáxia M87, o texto original deste artigo sobre a maneira como os neurônios se conectam também é um artigo sério, mas não é muito expressivo nem envolve qualquer descoberta notável, sob o ponto de vista de criação intelectual. Ao contrário, é fruto de um trabalho “braçal” com uma abordagem trivial, que revela resultados previsíveis. 
 
O link para o texto que foi postado num grupo sobre temas científicos é este: 
 
https://socientifica.com.br/2019/11/19/cientistas-encontram-universo-multidimensional-cerebro/?fbclid=IwAR0VvNBGCAKWN-3x9KLtIaWhNAbVzO83LU6vy0cbGcEBqQbgtbfK3E61Zxs 
 
Que aliás é um texto “velho”, originado de um artigo publicado em janeiro de 2016, que foi pervertido e vulgarizado de diferentes maneiras, e apresentado em algumas revistas de divulgação com diferentes níveis de distorção e sensacionalismo. Na revista Galileu, por exemplo, apareceu desta forma: 
 
https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2017/06/ligacao-de-neuronios-no-cerebro-pode-chegar-ate-11-dimensoes.html 
 
Que é comparativamente mais sóbrio, embora ainda contenha vários erros. 
 
Se for realizada uma pesquisa no Google por algumas palavras-chave, como “cérebro 11 dimensões” ou “11-dimension brain”, pode-se encontrar 7 milhões de resultados em português e 180 milhões em inglês, sem contar em outros idiomas... 
 
O tema já é investigado pelo menos desde 2004 e, com essa abordagem, pelo menos desde 2013. Portanto não traz à luz algo novo, além de não envolver grandes descobertas nem grandes novidades. Trata-se de uma linha de pesquisa que vem avançando gradualmente e esse tijolo soma mais um pouco aos estudos relacionados a esta área. 
 
Não rastreei exaustivamente para tentar encontrar o texto que deu origem à bobagem, inclusive porque há muitos artigos sobre o tema em arxiv.org, research gate etc. Apenas dei uma olhada em alguns, entre os quais estes: 
  
https://arxiv.org/pdf/1601.01580 (fonte primária do artigo citado no grupo) 
https://arxiv.org/pdf/1809.06441 
 
No caso da utilização de interferometria de longa linha de base para produzir uma imagem que represente algumas propriedades do disco de acreção do objeto massivo na região central de M87, embora essa aplicação específica da interferometria de longa linha de base não seja de grande importância e tenha servido apenas para corroborar algo que “já se sabia” há 100 anos (que a Teoria da Relatividade Geral é um bom modelo para descrever a gravidade), os criadores da técnica, por volta dos anos 1960, de fato prestaram uma contribuição importante, por permitir medir tamanhos angulares muito pequenos, que não poderiam ser medidos por outros métodos. Mas a simples aplicação dessa metodologia para uma investigação trivial, ainda que sobre um tema de grande interesse, é comparativamente bem menos importante, e só alcançou uma repercussão gigantesca na mídia por envolver o nome de Einstein, por reunir uma equipe numerosa e por ter um custo muito elevado, mas a relevância científica foi pequena (se comparada à invenção do método utilizado).  
 
No presente caso de “Cientistas encontram universo multidimensional no cérebro”, os erros já começam no título, exageradamente sensacionalista e distorcido. Seria mais ou menos como dizer que “cientistas descobrem que superfície dos pulmões é maior que a superfície da Terra”, o que não seria mentira, mas seria uma grosseira distorção, porque os pulmões são fractais com dimensão entre 2 e 3, por isso se forem medidos numa escala 2D podem ser arbitrariamente grandes, ou pelo menos podem ser medidos em escala de fragmentação cada vez maior até chegar ao nível atômico. Claro que se a superfície da Terra fosse medida da mesma forma, ela seria muito maior, por isso seria mais correto dizer “superfície dos pulmões é maior que a de uma esfera que tivesse mesmo raio da Terra”. 
 
No momento que foi postada essa bobagem no grupo, fiz alguns breves comentários: 
 
Aparentemente descobriram apenas q o número e a distribuição das conexões corresponde à imersão em 3d de políticos com até 11d, o q provavelmente tb ocorre em esponjas e qualquer outro fractal com dimensão entre 2 e 3, porém com filamentos mais espessos, o q ajuda a evitar essa abordagem inadequada. Deveriam ter pareceristas mais preparados nessa revista para filtrar essas coisas, ou q consultassem colegas q estudam politopos antes de aceitar essas publicações bizarras. Não há como ter um objeto com mais de 3 dimensões num espaço 3d, isso é primário. E uma imersão em 3d de uma estrutura q poderia ter 4d ou mais é apenas uma das interpretações possíveis para o objeto. Seria menos incorreto dizer q a funcionalidade no processamento de dados é equivalente à de um objeto q tivesse até 11d. Vou dar uma olhada no papel original e comentar melhor.” (como escrevi usando celular, o corretor ortográfico trocou “politopos” por “políticos” e trocou “paper” por “papear” e depois por “papel”. Para preservar ipsis litteris a postagem original, mantive esses detalhes)
 
Após dar uma olhada em alguns artigos sobre o tema, em particular o texto que deu origem a este, tenho pouco a acrescentar ao que já disse no início. 
 
Um dos detalhes que gostaria de acrescentar é uma criticar à omissão dos co-autores principais, PAWE L D LOTKO e MAX NOLTE. O texto publicado no grupo cita apenas KATHRYN HESS e RAN LEVI. Acho natural que, por cavalheirismo, citem a mulher em primeiro lugar, embora no artigo original o nome dela seja o segundo. E houve vários outros colaborares que também foram omitidos. Compreendo que em revistas impressas, por questões de espaço e limite orçamentário, não seja viável citar todos os co-autores, especialmente quando são muitos. Mas em revistas digitais não há razão para roubar os méritos dos co-autores, ainda que não seja um trabalho relevante. 
  
Também gostaria de descrever, de forma um pouco mais didática e detalhada, em que consistem os principais erros no artigo citado. Um cubo é um objeto 3D, cuja projeção da sombra pode ser representada em 2D, e essa projeção pode ser feita de diferentes maneiras, resultando em figuras 2D com diferentes aspectos. Um quadrado, por exemplo, é uma das projeções possíveis de um cubo (e também de um hipercubo), mas a projeção mais convencional é esta: 

 

Não é possível representar em 2D um cubo, preservando suas propriedades. Essa imagem é a projeção da sombra das arestas de um cubo transparente com uma fonte de luz que estivesse infinitamente distante (com raios de luz paralelos). Uma das diferenças entre essa representação em 2D e um cubo verdadeiro em 3D é que no cubo verdadeiro todos os vértices formam entre si ângulos retos, mas não é possível preservar essa propriedade ao projetar a imagem em 2D. 
 
Um hipercubo ou tesseract também pode ser projetado em 2D exatamente da mesma maneira que a imagem acima, bem como pode ser projetado como um quadrado, além de diversas outras maneiras, entre as quais esta (abaixo) é a mais comumente utilizada, por facilitar a percepção da estrutura que ele teria num espaço 4D: 

 

Mas ele também poderia ser projetado em 2D de modo a produzir qualquer uma destas imagens: 

 

Além de muitas outras projeções possíveis. Qualquer das projeções em 2D, perde informações da estrutura original em n-dimensões (n>2), sendo a perda tanto maior se maior for o número de dimensões do objeto original. 
 
Não há como olhar para um quadrado e inferir que ele foi gerado a partir da projeção da sombra de um cubo ou de um hipercubo, por exemplo, porque ambas as projeções poderiam produzir figuras idênticas em 2D. Qualquer hipercubo com dimensão inteira maior que 3 pode ser projeto de modo que sua sombra 2D seja um quadrado. Analogamente, qualquer imersão em 3D de um hipercubo de qualquer número de dimensões maior que 4 pode ser idêntica à um cubo. E não apenas isso, mas também um prisma trapezoidal, ou prisma retangular, ou prisma piramidal, entre outros, ao ter sua sombra projetada, também poderia gerar uma imagem idêntica à um quadrado, dependendo de como a projeção da sombra fosse feita. O mesmo vale para objetos com mais de 3 dimensões, sendo a variedade de possibilidades é maior para maior número de dimensões. 
  
Por isso não é possível examinar um objeto em 3D e simplesmente com base em suas propriedades geométricas deduzir que aquilo é uma imersão 3D de um objeto 4D. A imagem abaixo, por exemplo, não é a sombra de um cubo. São apenas dois quadrados com vértices unidos, que poderiam ter sido gerados pela projeção da sombra de um cubo. Nesse caso específico, por exemplo, não foi a sombra de um cubo que gerou essa imagem. Apenas foram desenhados dois quadrados com vértices unidos de modo a representar a mesma imagem que poderia ter sido projetada pela sombra de um cubo. 

 

Outro aspecto importante a ser considerado é que os axônios não são linhas unidimensionais. São estruturas tridimensionais em que duas das dimensões são pequenas em comparação ao eixo mais longo, assim como uma corda ou uma linha, que também são objetos tridimensionais, não unidimensionais. Mas no estudo publicado, os axônios foram tratados como se fossem unidimensionais. 
 
Outro problema é que não se pode interpretar um estudo com abordagem topológica da mesma forma que se interpreta um estudo com abordagem euclidiana ou mikowskiana. Em Topologia, uma xícara e um anel são objetos idênticos. Mas isso não significa que uma xícara e um anel sejam de fato idênticos se a comparação for feita com uma abordagem diferente. 
 
Por fim, o fato de o número de conexões entre neurônios ser similar (ou mesmo que fosse idêntico) ao número de conexões entre os vértices de um politopo 11D não significa, nem de longe, e sob nenhuma hipótese razoável, que o cérebro seja um politopo 11D, ou sequer a projeção da sombra de um politopo 11D. Uma das possíveis maneiras de se projetar a sombra de um cubo 10D é assim: 

 

Não encontrei de um 11D e não vou perder tempo procurando. Mas é essencialmente isso. Para 26D, por exemplo, uma das projeções possíveis seria assim: 

 

Essas projeções em 2D de politopos com muito mais de 3D podem se assemelhar topologicamente às projeções em 2D da estrutura dos neurônios e axônios, mas o fato de haver essa semelhança não diz nada sobre a similaridade entre as entidades a partir das quais estas sombras foram projetadas. Além disso, sabe-se, a priori, que o cérebro é uma estrutura confinada num espaço 3D e não pode ter mais que 3D. Mesmo que a Teoria-M seja futuramente corroborada como uma boa representação da Natureza, as dimensões maiores que 4 nessa teoria estão degeneradas, portanto não haveria nenhuma relação entre a Teoria-M e a estrutura do cérebro. 
 
Enfim, mais um lamentável punhado de bobagens sendo alardeado por revistas impregnadas com pseudociência e reivindicando o prestígio de científicas. Uma pena. 

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