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O MAIOR HERÓI DOS SÉCULOS XX E XXI

Por Hindemburg Melão Jr

Quando eu era criança, o conceito que eu tinha sobre super-heróis era aquele que a mídia nos oferece. Super-homem era o melhor arquétipo: o mais poderoso, inteligente, indestrutível e irreal... Eu queria ser como ele. Embora uma cena no filme de 1978 tivesse me causado certa frustração, quando ele perdeu seus superpoderes e brigou com um rapaz num bar, e apanhou vergonhosamente. Eu não esperava que ele chutasse o rapaz do bar para fora da galáxia, mas que pelo menos reagisse com dignidade e não ficasse apanhando como um idiota inerte.

À medida que fui amadurecendo, meu conceito de super-herói foi evoluindo. Sócrates, Gandhi, Madre Teresa de Calcutá passaram a ter o significado de super-heróis para mim.

Durante algum tempo, também cheguei a pensar se Spartacus, Átila, Lutero, Gengis Khan, Sabin, Newton, Pelé também poderiam ser considerados “super-heróis”. E me parece que sim, mas de uma maneira diferente e com significado diferente. Madre Teresa e Gandhi não realizaram algo que qualquer outra pessoa também teria capacidade de realizar, não era a posse de talentos excepcionais ou “super-poderes” que fizeram deles super-heróis. Foi a conduta que adotaram, e que qualquer outra pessoa também poderia adotar. Nos casos de Spartacus, Pelé, Newton, Lutero, eles tinham literalmente “super-poderes” e usaram esses poderes para alcançar objetivos que poucas pessoas no mundo poderiam, enfrentaram dificuldades extremas e venceram.

Spartacus era escravo e se tornou praticamente um general. Pelé era o garoto pobre da favela que se tornou o Rei, idolatrado em todo o mundo. Newton era o menino da roça e introvertido e abandonado, que limpava o chão da universidade para custear seus estudos, e desvendou para a humanidade os segredos de como funciona o Universo. Lutero lutou sozinho contra a maior e mais poderosa instituição do mundo e praticamente empatou.

O herói não precisa vencer ou sequer chegar perto de vencer a batalha que ele trava. Spartacus morreu no final, e antes de morrer ele se corrompeu, o que é muito mais grave. Giordano Bruno perdeu sua vida em sua luta, mas não perdeu sua honra. Perdeu sua luta devido à imensa desproporção de forças entre ele e seu oponente, e devido à covardia dos que deveriam ter interferido e lutado ao lado dele. Jesus morreu, mas o Cristianismo não apenas sobreviveu como também se tornou a doutrina com maior número de adeptos no mundo.

Quando revi Super-homem, alguns anos depois, entendi que o que fazia dele um verdadeiro super-herói não eram os superpoderes que ele possuía, mas sim o gesto corajoso de ter renunciado aos seus poderes para viver um grande amor com Lois Lane, e manteve-se firme em sua decisão, mesmo diante às dificuldades que encontrou pela frente, e só voltou atrás nessa decisão quando se lhe apresentou o dilema de escolher entre proteger a humanidade ou viver sua história de amor, isto é, por ele compreender que havia objetivos mais elevados e mais altruístas do que saciar sua necessidade de amar e ser amado.

O que faz um super-herói não é a posse de poderes especiais, sejam paranormais (e fictícios), financeiros, físicos ou intelectuais. O que faz um super-herói está relacionado ao caráter. A posse de superpoderes pode desempenhar um papel catalizador, mas não é um elemento essencial. O homem que saltou no rio tietê para tentar salvar um cachorro e acabou morrendo afogado é um herói, a mãe da peça de Victor Hugo que pega o único pão e o divide entre seus dois filhos, e os fica observando comer, é uma heroína.

O herói faz o que precisa ser feito, mantém-se fiel aos seus ideais, e seus ideais não podem ser deturpados. Hitler, por exemplo, não foi um herói porque embora ele lutasse por seus ideias, havia uma terrível perversão em sua forma de ver o mundo. Aos olhos dos que o seguiam e comungavam a mesma visão distorcida, a estas pessoas ele parecia ser um herói, e foi tratado assim em seu país durante anos

Enquanto a mídia estava zombando de Ronaldo, o Fenômeno, por ele estar com o joelho destruído, e mesmo assim querendo jogar a copa, achando que a performance dele seria um fiasco, ele se manteve treinando duro, deu o suor e o sangue, ultrapassou seus limites e se restabeleceu em prazo recorde, foi à Copa e venceu a Copa. Todos estavam fazendo piada dele, e enquanto estavam rindo, ele fez o que tinha que ser feito e esfregou no focinho de todos que ele podia. Na época, escrevi um artigo em homenagem a ele, a qual eu gostaria de reproduzir aqui:

Uma pequena homenagem

Quarta, 08 Junho 2011 03:27

Por Hindemburg Melão Jr

Não importa qual sua especialidade, se você atinge um nível como o do Ronaldo, isso o coloca num patamar acima do mortal comum. Quando Pelé esteve num evento nos EUA, nos anos 80, foi recebido pelo presidente Ronald Reagan nos seguintes termos: "O meu nome é Ronald Reagan, sou o presidente dos Estados Unidos. Mas você não precisa se apresentar, porque todos sabem quem é Pelé." No caso de Ronaldo, creio que quando ele calou os críticos mais ácidos, em 2002, sobre a carreira dele estar acabada, devido aos problemas no joelho, e mesmo ferido consagrou-se artilheiro não apenas da Copa, mas de todas as copas de todos os tempos, e ainda por cima fez sozinho quase o dobro dos gols do time inteiro somado da Espanha, que foi campeã na última copa, deixou claro que a carreira dele termina quando ele quer, não quando a mídia diz que deve acabar. Eu não me interesso por futebol, mas respeito fenômenos em habilidade em qualquer área. E Ronaldo não é apenas um fenômeno, mas também um herói, uma lenda vida, um ícone. Certa vez, ao tentarem assaltar Pelé, quando os assaltantes o reconheceram, pediram desculpas a ele, devolveram o que haviam roubado e ainda pediram autógrafo. Há um nível de respeito que situa certas pessoas num plano que não se consegue chegar com poder político ou financeiro, um plano que transcende, um plano sobre-humano. São raríssimas as pessoas que alcançam esse estágio. Numa palestra ministrada por Newton Da Costa, fundador das Lógicas Paraconsistentes, um dos maiores lógicos do mundo, ele declarou que se ele tivesse a oportunidade de conhecer Gödel, que ele pediria licença para beijar os pés dele, e os pés de Gödel nem eram tão habilidosos como os de Ronaldo.

Estou rememorando essa homenagem ao Ronaldo porque ele foi um herói ao ter se mantido firme em sua atividade, mesmo com o joelho lesado. Estava com uma notória desvantagem em comparação aos adversários saudáveis, mesmo assim ele teve a coragem de os enfrentar. Que dizer então de Hawking, que não tinha apenas um joelho lesado, mas todo o corpo paralisado, mesmo assim não desistiu e continuou lutando e se mantendo no topo da produção científica mundial até hoje.

Quando Bobby Fischer morreu, fiquei triste porque uma lenda viva partia e deixava o QI médio da humanidade mais baixo. Com a partida de Hawking não é apenas o QI médio da humanidade que fica menor, mas um dos exemplos mais extraordinários de força de vontade, superação, coragem, determinação e hiperheroismo deixou a vida para se confirmar na história.

Quando Getúlio Vargas se suicidou, um trecho de sua carta dizia “deixo a vida para entrar para história”. Hawking já havia entrado para a história desde os anos 1970, quando demonstrou, juntamente com Penrose, o teorema da singularidade. Depois mostrou também que buracosnegros não são “totalmente negros”. E ao longo de sua vida, tem contribuído imensamente para a compreensão do Universo e de algumas das entidades cósmicas mais exóticas, em especial os buracos-negros. Em seu último artigo, se não me engano publicado em 2014, ele mostrou que a massa dos buracos negros e outros objetos densos, como estrelas de nêutrons, apresenta valores diferentes dependendo da distância ao observador, sugerindo uma revisão nos cálculos dessas entidades.

Hawking será para sempre lembrado como um hiper-herói que nos faz sentir orgulho de pertencermos à espécie humana. Se alguma guerra nuclear destruir nossa civilização, se os registros sobre nossa história se perderem, restando poucos fragmentos, é provável que as futuras civilizações que venham a se desenvolver em nosso planeta e que descubram restos arqueológicos com fragmentos de informações sobre Stephen Hawking, deduzam que ele foi um personagem mitológico, não acreditarão que alguém assim pode ter existido.

A vida de Hawking é uma das mais comoventes e incríveis na história da humanidade. Ele foi, pouco a pouco, perdendo a coordenação motora, depois a mobilidade nos membros, depois nos dedos, depois perdeu a fala, e ao final havia perdido quase tudo, exceto sua honra e sua genialidade, e isso lhe bastou para que continuasse produtivo durante décadas, trabalhando intensamente para enriquecer o conhecimento da humanidade.

Lamento profundamente por sua morte e lamento por não poder expressar de maneira mais clara e justa o quanto Hawking representou para a humanidade e o exemplo de vida que ele oferece a todos com sensibilidade suficiente para aprender de seu exemplo.