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CONTATO

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HANS ROSLING E SUAS CONCEPÇÕES EQUIVOCADAS

Por Hindemburg Melão Jr

 

Há alguns meses, os amigos Joao Antonio e Joel Martins perguntaram minha opinião sobre um artigo de Nassin Taleb, no qual ele fazia críticas aos testes de QI. Coincidentemente, eu havia iniciado uma série de 15 artigos sobre medidas de performance, em que alguns dos temas abordados eram os mesmos citados pelo Taleb, por isso achei que seria melhor aguardar a conclusão destes artigos antes de comentar o texto de Taleb, para que pudesse citá-los como referências, sem ter que repetir conteúdos. Porém estes artigos envolvem algumas pesquisas, o que torna o processo muito mais demorado do que eu imaginava. 


De forma muito resumida, Taleb faz algumas críticas corretas e algumas incorretas. Nos casos das críticas incorretas, toda a abordagem que ele dá é inadequada. Nos casos das críticas corretas, embora alguns testes de QI possuam de fato as limitações que ele aponta, as “soluções” que ele oferece são muito inadequadas e as generalizações que ele faz não representam corretamente as características observadas nos bons testes cognitivos. De certo modo, Taleb incorre na clássica falácia do espantalho, em que ele seleciona uma classe de testes cognitivos de baixa qualidade para dirigir suas críticas, e pretende que essas mesmas críticas sejam válidas a todos os demais testes. Farei uma análise mais detalhada no artigo no qual tratarei desse assunto. Aqui o tema é outro. 


Hoje o amigo Thiago postou um link sobre um artigo de Hans Rosling, no qual o autor faz algumas críticas à maneira de pensar de seus alunos e mostra como e porquê considera que eles estão equivocados. Contudo, a argumentação de Hans Rosling não é adequada, ele incorre em alguns erros que precisam ser revisados para que se possa interpretar os temas analisados de modo a que conduzam a conclusões mais representativas do que realmente acontece. 


Antes de ler este artigo, é recomendável ler o texto de Rosling: 


https://medium.com/@altruismoeficaz/o-instinto-de-lacuna-fba84bfbdb0d?fbclid=IwAR3BGXN5_YXqGfH7Zcco_4n0DBRk3fI_Zcyq5acnkureFof_I8qaGnbNGpA  

Hans Rosling foi um talentoso médico, estatístico, escritor e palestrante, orientador de vários estudantes de doutorado, um dos pioneiros na disseminação da Medicina baseada em evidências, autor de estudos sociológicos e interpretações peculiares que conduziram a algumas desmistificações importantes, mediante o uso de Estatística na abordagem de diversos temas relacionados à Antropologia, Sociologia, Saneamento, Epidemiologia etc. Orientou seu filho no desenvolvimento do software Trendalyzer, foi um dos fundadores e presidente na Gapminder e autor de artigos muito interessantes e com abordagens incomuns. Cunhou alguns termos como "mega concepções equivocadas" e "instinto de lacuna", que estão presentes em vários de seus artigos.

Num de seus artigos, Rosling contesta as opiniões de seus alunos e apresenta uma série de fatos e argumentos para mostrar que eles estão equivocados, porém uma análise mais profunda dos mesmos fatos nos quais ele se baseia mostra que, na verdade, a visão de Rosling não é a mais adequada para representar os fatos de acordo com as evidências disponíveis.


Ao analisar os dois gráficos a seguir, Rosling conclui que a estratificação adotada em 1965 para classificar os países como “desenvolvidos” e “em desenvolvimento” (ou entre “ricos” e “pobres”) não é mais adequada para o cenário atual. O argumento que ele utiliza para justificar sua opinião é que o quadro onde se encontram os países desenvolvidos está ficando com cada vez maior número de países, enquanto o quadro onde estavam os países pobres está ficando vazio. Além disso, o intervalo que separava os dois grupos está ficando preenchido. 

 

Quando se olha para os dois gráficos acima, de 1965 e 2017, percebe-se claramente o efeito que ele descreve, mas é completamente ilusório.  
Há vários problemas em sua abordagem, um dos quais será examinado com mais detalhes num dos artigos que estou escrevendo, sobre inflação no rating de Xadrez, como medir corretamente esse efeito, suas principais causas, como minimizar esse efeito etc. Existe um aumento no nível técnico dos jogadores, ao longo dos anos, e parte da inflação se explica por isso, porém há vários outros efeitos envolvidos e a situação é bem mais complexa do que poderia parecer à primeira vista. 


No caso do IDH, da taxa de mortalidade infantil, taxa de desemprego, número de médicos per capita e outros indicadores, também há vários fatores que contribuem para a variação nos valores desses indicadores ao longo dos anos, embora esses indicadores sejam muito menos eficientes que o rating de Xadrez na função para a qual foram desenvolvidos, no sentido de medir de forma adequada a variável que se deseja conhecer, com escalas adequadas, produzir escores úteis e acurados. A maneira inadequada como esses indicadores são calculados oferece margem para que muitos países se aproveitem dessas falhas para obter escores mais altos, sem que de fato promovam melhorias. As reformas ortográficas no Brasil e a aprovação automática, por exemplo, são artifícios para obter melhores escores em indicadores educacionais, sem que haja nenhuma melhora real na qualidade da Educação, aliás, geralmente isso está associado à piora na qualidade da Educação. 


No caso específico desse texto de Rosling, um dos problemas está em usar a taxa de mortalidade infantil até 5 anos como único parâmetro para determinar o nível de desenvolvimento dos países. Embora esse indicador possa ter correlação mais forte com o IDH do que outros, e talvez possa, sozinho, explicar a maior parte da variância observada no IDH, o fato é que o uso do IDH inteiro está menos sujeito a vieses regionais e temporais do que o uso isolado de um de seus componentes. O ideal seria criar novos indicadores, mais bem ponderados e mais representativos das variáveis que se deseja medir, mas na ausência disso, o IDH ainda é melhor do que outras alternativas menos completas, menos objetivas ou improvisadas. Esse é um dos problemas mais óbvios, mas não o mais grave. 


O problema mais grave na abordagem de Rosling é que a taxa de sobrevivência após a idade de 5 anos não é medida numa escala intervalar e tem limites assintóticos. Além disso, na proximidade aos limites assintóticos a disparidade dessa escala em comparação a uma escala intervalar é gigantesca. Um país que tivesse taxa de alfabetização de 999/1000 e outro que tivesse 998/1000 indicariam níveis muitíssimo diferentes de qualidade de vida, numa proporção de aproximadamente 2:1, isto é, no país com 999/1000 a qualidade de vida seria cerca de 100% melhor do que no país com 998/1000 (a porcentagem de analfabetos seria metade). Um efeito análogo se verifica no caso da taxa de mortalidade infantil. 
Quando os valores se aproximam aos limites, as distorções na escala vão crescendo e pequenas diferenças percentuais passam a representar muito mais do que se estas mesmas diferenças estivessem longe das assíntotas. Não é que as diferenças entre os países está diminuindo, mas sim a métrica utilizada não tem intervalos uniformes. 


Por isso, antes de representar os dados no gráfico, seria necessário fazer 2 ajustes na escala:  


1.    Em lugar da TMI (taxa de mortalidade infantil) ou TSI (taxa de sobrevivência), deveria usar a proporção entre ambas: TSI/TMI. Isso não resolveria perfeitamente o problema de deixar a variável numa escala intervalar, mas atenuaria muito a distorção nas extremidades e permitiria visualizar de forma muito mais realista como é a verdadeira distribuição dos países nesta variável. 


2.    A outra correção seria reposicionar a média com os dados de 2017, em vez de continuar usando os critérios de 1965. 
Em vez de considerar que os países que eram pobres no ano 1500 se tornaram ricos no ano 2000, porque passaram a satisfazer os critérios de riqueza de 1500, o mais apropriado é considerar que o critério que distingue países ricos de pobres evolui ao longo do tempo e os critérios em 2000 já não são os mesmos de 1500. 


Os países pobres de 2017 certamente têm qualidade vida melhor que os países ricos de 1400 e boa parte dos países riscos de 1900. Porém o fato de haver uma melhora na qualidade de vida, observada ao longo das décadas, dos séculos e dos milênios, e esse efeito ser observado globalmente, isso não promove necessariamente uma redução nas diferenças entre os países com padrão mais elevado em comparação aos países com padrão mais baixo.

 
Os países não estão indo para dentro da mesma caixa, como ele diz. Essa ilusão se deve ao limite assintótico na variável que se está utilizando e à variação na escala. Quando se “corrige” a escala, usando  TSI/TMI em lugar de TSI, percebe-se que, embora alguns países pobres realmente se aproximem ao nível dos países ricos, ou passem a fazer parte do grupo dos países ricos, como são os casos da China e da Índia, na maioria das vezes a situação global permanece aproximadamente inalterada, com alguns países pobres entrando para o grupo dos ricos e alguns ricos entrando no grupo dos pobres. 


Utilizando dados do Banco Mundial, disponíveis em https://data.worldbank.org, reproduzi o gráfico de Rosling para 2017 e fiz algumas alterações na escala, para verificar como o verdadeiro cenário se nos apresenta. O gráfico com mesma escala e mesmas variáveis escolhidas por Rosling mostra resultados um pouco diferentes dos dele, embora tenham essencialmente a mesma distribuição nos níveis abaixo de 3,5 filhos por mulher, acima de 5 filhos, abaixo de 95% de sobrevivência e acima de 90%, conforme podemos ver a seguir:

 

Quando começamos a consertar a escala, a situação muda muito. Em lugar de taxa de sobrevivência, se usar a proporção entre sobreviventes e óbitos, a curva muda completamente:

 

Agora os países mais desenvolvidos não se comprimem numa região estreita, como se estivessem todos quase no mesmo patamar de desenvolvimento (supondo que esses critérios fossem adequados para medir o desenvolvimento). Em vez disso, distribuem-se ao longo de uma larga faixa com vários níveis. Essa representação visual é suficiente para mostrar um dos problemas na interpretação de Rosling, mas ainda não é muito apropriada porque “espreme” os países menos desenvolvidos na faixa abaixo de 50. Para resolver isso, basta colocar o logaritmo da proporção entre sobreviventes e óbitos. Também foi feita mais uma pequena modificação para representar os pesos relativos de cada país, usando as populações elevadas a 2/3 para determinar as áreas das projeções circulares de esferas, assim o volume de cada bolha representa a população de cada país. O resultado é o gráfico abaixo:

 

Agora temos a informação representada de maneira adequada e podemos analisar intuitivamente os fatos com base na imagem que o gráfico nos oferece, sem que a imagem nos induza a conclusões distorcidas. 


Podemos perceber claramente os seguintes fatos: 


1.    A divisão dos países em 2 grupos, com um intervalo relativamente “vazio” (ou menos preenchido) entre eles não é artificial. Os dados realmente se apresentam assim, portanto o uso de 2 estratos ou 2 classes para representar os grupos de países é útil para diversos estudos. 


2.    O grupo mais desenvolvido se tornou mais numeroso do que era, mas não ficou mais homogêneo, e os elementos do grupo continuam se distribuindo ao longo de um largo espectro. Da maneira como Rosling estava representando os dados, causava a ilusão de que todos os países estavam convergindo para uma condição aproximadamente igual, na qual a taxa de sobrevivência seria muito perto de 100% para todos os países. Está correto, porém há uma diferença imensa entre 99% e 99,9%, por exemplo, e a maneira como Rosling representa os dados não é adequada para visualizar essa diferença, causando a ilusão de que 99,9999% e 99% são quase a mesma coisa e indiquem estágios de desenvolvimento quase iguais. 


3.    No caso do número de filhos por mulher, é uma variável com propriedades peculiares, que não deve ser interpretada como “quanto menor, melhor”. Se a taxa de filhos que alcançam a idade fértil for menor que 2 por mulher, a população com tais características tende à extinção, a menos que aumente essa taxa em algum momento. Por isso quando essa variável chega perto de 2, os valores menores deixam de indicar maior desenvolvimento, e a única variável relevante (no gráfico) que continua indicando maior desenvolvimento passa a ser a taxa de sobrevivência, ou log(sobreviventes/óbitos).

 
4.    Seria preferível utilizar o IDH, em lugar desse par de variáveis, para tentar representar o desenvolvimento, principalmente devido ao problema citado acima (item 3). Contudo, o IDH também apresenta várias falhas e estaria longe do ideal. Talvez futuramente eu formule um método melhor que o IDH e faça um update nesse artigo. 
 
Em termos absolutos, quando se considera intervalos suficientemente longos e populações suficientemente numerosas, todos os países estão melhorando. Mas em termos relativos, continua havendo alguns mais ricos e outros mais pobres. Além disso, as diferenças entre ricos e pobres não estão diminuindo. Em muitos casos essa diferença tende a aumentar, não apenas quando se compara países, mas também quando se compara indivíduos. No caso da distribuição de renda, por exemplo, quando não há frequentes e profundas intervenções do governo para alterar o rumo natural dos fatos, a desigualdade tende a aumentar. 


O processo de seleção natural consiste basicamente nisso. Se uma característica oferece uma vantagem competitiva, os portadores dessa característica tendem a gerar mais descendentes, descendentes mais longevos e mais férteis, que, por sua vez, geram mais descendentes com essa característica, e nas gerações seguintes, aqueles nos quais essa característica está mais destacada levam vantagem sobre aqueles nos quais a mesma característica era só um pouco destacada. Quanto mais notável é a presença dessa característica, maior será a probabilidade de sobrevivência e procriação, promovendo um distanciamento cada vez maior entre os mais adaptados e os menos adaptados, muitas vezes levando à extinção dos menos adaptados. 


Quando os europeus começaram a colonizar a América, houve dois efeitos: as populações menos desenvolvidas foram gradualmente dizimadas pelas mais desenvolvidas, e as diferenças de recursos e poder entre as civilizações foi aumentando, em vez de ir diminuindo. Por outro lado, à medida que as terras que pertenciam às civilizações menos desenvolvidas foram sendo ocupadas pelos integrantes das civilizações mais desenvolvidas, estes trouxeram novas tecnologias e conhecimentos que elevaram o nível daquelas regiões em comparação a como era enquanto as mesmas regiões eram ocupadas pelos nativos, de modo que a diferença tecnológica, cultural, social entre as regiões diminuiu, embora a diferença tecnológica, cultural, social entre os povos tenha aumentado. 


A produção de energia é um bom indicador do nível de desenvolvimento de uma civilização, e quando se considera a curva de produção mundial de energia ao longo das últimas décadas e séculos, percebe-se que esse ritmo está crescendo aceleradamente, isto é, quanto mais desenvolvido, mais rápido é o desenvolvimento. Quando se considera o efeito em cada país, acontece aproximadamente o mesmo: países mais desenvolvidos tendem a evoluir mais rápido que os menos desenvolvidos, aumentando a diferença entre eles. Há algumas exceções, mas em geral é assim. Portanto o efeito real é tão diferente do descrito por Rosling que chega quase a ser o oposto do que ele diz. Em vez de todos os países estarem caminhando para uma situação de aproximada igualdade, o que está de fato acontecendo é que, em média, as diferenças parecem estar aumentando cada vez mais. 
Para que se possa interpretar corretamente a situação, também é importante distinguir entre “país” como sendo a “região geográfica que cada país delimita”, ou país como sendo o “povo que vive naquela região”. 


De modo geral, as regiões e os povos são aproximadamente estáveis ao longo do tempo, em intervalos relativamente curtos (poucas décadas), por isso geralmente é quase indiferente considerar “país” como sendo uma “região geográfica” ou como sendo o “povo que ocupa aquela região”. Mas em alguns casos há diferenças relevantes, quando ocorrem muitas migrações, invasões, ocupações, guerras etc. A América pré-colombiana, por exemplo, é muito diferente da pós-colombiana. 


Por isso a evolução dos países a longo prazo é muito mais complexa, devido aos micro-efeitos cumulativos de migrações, que podem passar despercebidos em intervalos curtos, mas são notórios em períodos mais longos, fazendo com que haja uma diferença importante quando se mede as características da região em comparação a medir as características do povo que ocupa aquela região. 


No exemplo de Rosling, o intervalo é de poucas décadas, por isso acaba não havendo grande diferença entre tratar os países como sendo as regiões ou como sendo os povos que ocupam as respectivas regiões, pois em poucas décadas não há tempo suficiente para que ocorra uma mudança substancial na composição das populações. Em alguns casos, tais diferenças se processem muito rapidamente, mas geralmente levam séculos. 


Embora a diferença provocada por migrações, quando se contempla períodos curtos, geralmente seja pequena, ela existe e seria mais um detalhe que poderia refinar a análise, se fossem consideradas as migrações e o impacto que elas provocam sobre as características de cada país. 


Portanto, a opinião de Rosling sobre todos os países estarem melhorando a qualidade de vida é correta e se apoia nos fatos observados ao longo dos milênios, séculos e décadas. Porém a opinião de que a diferença entre países riscos e pobres está diminuindo se deve ao erro de não uniformizar os intervalos na escala antes de analisar os dados. A opinião de que mais países passaram a ser classificados como “ricos” e atualmente haja mais países ricos do que havia em 1965 se deve à utilização de critérios de 1965 para avaliar a situação atual, em vez de atualizar os critérios. A opinião de que não existe diferença entre países ricos e pobres, ou de que há uma tendência para que essa diferença desapareça, também se deve ao erro de não utilizar uma escala adequada para que a métrica forneça medidas corretas sobre como são as diferenças em diferentes regiões da escala. 


De modo geral, a abordagem de Rosling é interessante sob vários aspectos, mas algumas de suas interpretações são bastante destoantes da realidade. A crítica que ele faz à classificação de países como “ricos” e “pobres” tem alguns aspectos positivos, por minimizar discriminações étnicas e regionais, e combater a visão com sintomas de racismo e xenofobia que pode ser observada no discurso que ele atribui a alguns de seus alunos, como no caso da menina que disse “eles nunca serão como nós”, referindo-se aos não-suecos. Ela está errada, mas a partir do momento que ele utiliza argumentos incorretos e sem respaldo científico para sustentar suas ideologias, acaba causando mais mal do que bem, porque ao examinar os dados com mais rigor e refutar seus argumentos, poder-se-ia ficar com a impressão de que sua ideologia também estava errada, já que ela se apoiava naqueles argumentos que foram demolidos. 


Para o ponto de vista que ele gostaria de defender, seria mais apropriado mostrar como evoluem as civilizações ao longo da história, com altos e baixos, como ocorreu com Egito, Grécia, Roma, Mongólia etc. Os países mais poderosos não permanecem para sempre no topo do poder. Os países evoluem até certo ponto, atingem um apogeu, conservam-se por algum tempo, começam a decair e cedem espaço a outra nação. A China é um caso interessante, que já esteve no topo e agora parece estar novamente caminhando para restaurar sua hegemonia. Ainda é cedo para saber até que ponto chegará a China, porque há muitas diferenças na maneira como ela está crescendo agora em comparação à maneira como ela cresceu no passado, além de o cenário atual ser muito diferente. 


Um fenômeno similar se observa também entre várias espécies animais, em especial os dinossauros, que dominaram o planeta durante mais de 150 milhões de anos, mas acabaram não apenas perdendo sua condição como também foram extintos. 


Existem países ricos e pobres e não há evidência de que se fundirão num grupo só. Afirmar que tal classificação não existe é um erro com consequências graves, porque indicaria que os métodos utilizados para determinar quais são os elementos de cada classe não são confiáveis, quando na verdade esses métodos são imprescindíveis a praticamente qualquer estudo científico. 


A classificação de elementos em grupos com características mais semelhantes entre si do que quando comparados a elementos de outros grupos é muito útil para viabilizar muitas análises que seriam ininteligíveis sem isso. A classificação dos seres vivos, por exemplo, possibilita determinar quais espécies de animais podem ser utilizadas como cobaias, que sejam suficientemente semelhantes aos humanos na característica que se deseja investigar, para obter informações importantes sobre o efeito de certas substâncias ou certos tratamentos, sem que seja necessário submeter humanos a riscos elevados nos estudos preliminares. No Mercado Financeiro, o reconhecimento de padrões que se assemelham em determinada característica permite fazer previsões sobre o comportamento das cotações que não seriam possíveis por outros meios. De modo geral, a classificação de elementos em grupos nos quais os integrantes compartilhem muitas características permite analisar efeitos que não seriam notados se os elementos fossem considerados individualmente, ou se não fossem agrupados, ou se fossem considerados como todos iguais. 


A ideia de que em poucos anos os países mais pobres tendem a alcançar os mais ricos e ocupar a mesma “caixa”, com os dois grupos se fundindo num só, é uma ilusão que se deve ao limite assintótico da escala. Ao utilizar no gráfico uma escala que impõe uma assíntota em 100% para quase todos os indicadores, quando os países começam a se aproximar desse limite, fica-se com a impressão de que não há como continuar melhorando porque a escala usada no gráfico não possibilita visualizar esse efeito, mas na verdade podem continuar melhorando indefinidamente. A métrica utilizada é que vai perdendo sua sensibilidade para detectar grandes avanços quando o nível de evolução se aproxima ao limite assintótico. Mas quando se ajusta a variável considerada de modo a eliminar esse limite, fica claro que há margem ilimitada para que os mais ricos continuem evoluindo. 


Portanto, alguns países que atualmente são pobres devem se tornar ricos nas próximas décadas, alguns que atualmente são ricos devem se tornar pobres, a maioria dos ricos deve permanecer como está e a maioria dos pobres também, e continuará a haver países ricos e pobres, mudando alguns elementos de um grupo para o outro e vice-versa, mas a distância média que separa ricos de pobres deve permanecer aproximadamente a mesma, ou aumentar ligeiramente, desde que a escala utilizada seja apropriada.