Planeta e da Lua

 

Revisão do vídeo "História completa da Gravitação"
 

10 de Julho de 2020

Por Hindemburg Melão Jr

 

Conforme já comentei no vídeo no qual analiso o vídeo de Pedro Loss sobre buracos-negros (https://youtu.be/Fbz9luP2ymQ), acho muito interessante sua iniciativa em atuar com divulgação científica, mas infelizmente ainda há uma quantidade muito grande de detalhes que precisam ser revisados. 
 
Um amigo postou num grupo de Astronomia o link para um vídeo no qual a proposta é apresentar “A história completa da Gravitação”. Naturalmente não é possível apresentar uma história tão complexa em 30 minutos, e eu não esperava por isso. Mas seria desejável que os tópicos selecionados tivessem sido adequadamente investigados para evitar a transmissão de informações incorretas. 
 
Costuma-se alegar que a maioria das pessoas prefere informações incorretas e superficiais, e rejeitam fortemente abordagens mais profundas, rigorosas e detalhadas, mas isso não é verdade. Cosmos, a versão de 1980, por exemplo, é de longe o melhor seriado para TV e um dos melhores livros de divulgação científica já escritos. Um de seus diferenciais é o rigor técnico, a profundidade e a riqueza de detalhes com que Sagan analisa cada tema, o que faz de Cosmos uma Obra Prima atemporal, que chegou a ser assistido por 3% da população mundial na época que foi lançado, e continua sendo um dos documentários mais assistidos sobre Astronomia. 
 
Outro grande sucesso foi o livro “O valor da Ciência”, de Poincaré, muito profundo e detalhado, e mesmo após transcorridos 116 anos de sua publicação, continua sendo um dos melhores livros da área, além de continuar extremamente atual. 
 
Outro texto excelente de divulgação é Commentariolus, de Copérnico, que fez muito sucesso na época que foi escrito (século XVI). Não é propriamente um livro, é uma coleção de anotações de Copérnico. O texto é muito fluente e muito didático, no qual Copérnico apresenta seus argumentos a favor do Heliocentrismo e as vantagens de seu modelo em comparação ao Ptolomaico. Infelizmente vários dos argumentos de Copérnico estão incorretos. Além do mais, seu modelo é apenas tão bom quanto o Ptolomaico, no que diz respeito a fazer previsões sobre as posições planetárias. Uma das poucas vantagens do modelo de Copérnico é sobre o tamanho aparente da Lua, que deveria variar quase na proporção de 2:1 no modelo de Ptolomeu, mas varia apenas 1,08:1 no modelo de Copérnico, que é mais próximo à variação real de 1,1162:1. Essa vantagem não é inerente à estrutura do modelo Copernicano, mas sim aos parâmetros escolhidos por Copérnico. Se utilizasse parâmetros equivalentes no modelo Ptolomaico, seria possível manter a mesma proporção do modelo Copernicano para o tamanho aparente da Lua, mesmo colocando a Terra no centro do Universo. 
 
No conjunto, o modelo de Copérnico não oferece nenhuma vantagem real em comparação ao modelo de Ptolomeu, exceto por utilizar melhores valores para os parâmetros e suprimir alguns elementos geométricos. Por outro lado, como Copérnico não conseguiu oferecer respostas adequadas às objeções de Aristóteles ao modelo Heliocêntrico, acabou não tendo muita aceitação. Isso só começou a mudar quando Galileu refutou boa parte da Física Aristotélica, quase 100 anos depois. 
 
Enfim, alguns dos melhores livros científicos são justamente os mais profundos, porque o público que tem real interesse em Ciência quer exatamente isso. Quem não quer isso é porque não gosta de Ciência, e tentar perverter a Ciência para agradar a esse público não faz muito sentido. Se a pessoa não gosta de Ciência, há uma grande variedade de outros assuntos com os quais ela pode se envolver e se divertir. 
 
Tentar corromper a Ciência, fazendo-a parecer algo que ela não é, só para ter mais pessoas interessadas nessa coisa, não pode ser chamado “divulgação científica”. A divulgação científica consiste em levar a Ciência genuína ao público, tornando-a mais acessível, sem distorcer sua essência, sem descaracterizá-la, tal como faziam Sagan, Poincaré, Feynman, Copérnico, Weinberg, entre outros. 
 
Não espero que todos os divulgadores de Ciência tenham o padrão de Sagan, Asimov ou Poincaré, assim como não se pode esperar que todos os jogadores de futebol proporcionem o mesmo show que Pelé, Ronaldinho ou Neymar, porque nem todos possuem o mesmo talento. Muitos se esforçam ao máximo para fazer como estes ícones, mas não conseguem, e a culpa não é deles. Mas seria desejável que cada um fizer o seu melhor, dentro de seus limites, ou pelo menos tomassem os devidos cuidados para evitar os erros técnicos e historiográficos mais graves, assim não propagariam informações incorretas. 
 
Na era dos Fake News, pelo menos a Ciência e os bons divulgadores da Ciência deveriam se posicionar contra essa prática execrável. A humanidade levou milênios para construir computadores e criar a rede mundial, tornando o conhecimento de toda a humanidade acessível a cada pessoa, em qualquer lugar do mundo, mas 95% das pessoas com acesso à Internet usam esse recurso tecnológico para postar fotos de gatos, fotos em vestiários e banheiros de shoppings. Isso é péssimo, é um gigantesco desperdício de recursos e de oportunidade. Mas muito pior do que isso é disseminar informações falsas ou incorretas, teorias da conspiração e diferentes tipos de fake news (geralmente ligadas à política). 
 
Felizmente os vídeos de divulgação de Pedro Loss não estão nessa categoria. Ao contrário, ele divulga muitas informações úteis e corretas, com pequenos erros punctuais, a maioria dos quais não chega a comprometer a qualidade geral do trabalho. Mas seria desejável que, na medida do possível, esses erros fossem filtrados, elevando seu canal a um padrão de excelência e recompensando seus espectadores, que confiam na exatidão de suas informações, com o melhor que ele pode produzir. E certamente o que está sendo produzido atualmente ainda está longe do melhor que ele pode fazer. 
 
A seguir, farei uma breve analise dos primeiros minutos deste vídeo: 
 
https://www.youtube.com/watch?v=4OLOOs-uMhM&feature=youtu.be&fbclid=IwAR2ZPG_bnuZxRjFRvL61xA2hSKSBQWvHEJnPUC3alCTMnO-Qgju7_RO33Uk
 
Não analisarei o vídeo inteiro porque a densidade de erros por unidade de tempo exigiria várias horas para comentar o vídeo todo. Como o vídeo propriamente dito começa em 2:30, fiz uma análise dos primeiros dois minutos e meio (até 5:00) e depois alguns trechos aleatórios nos 25 minutos seguintes. Para facilitar a contextualização de cada comentário, cito o tempo (minutos:segundos) antes de analisar cada trecho, colocando as declarações de Pedro Loss em vermelho e entre aspas, e meus comentários em preto: 
 
2:37 Os ciclos lunares duram 28 dias, 7 em cada fase”.
 
Há diversos ciclos lunares, mas nenhum deles dura 28 dias. Pela descrição, ele se refere ao período de revolução sinódica da Lua, responsável pelas mudanças de fases, que dura, em média, cerca de 29,530589 dias. Isso porque o período de revolução sideral da Lua em torno do baricentro Terra-Lua dura 27,321662 dias enquanto a revolução sideral do sistema Terra-Lua em torno do baricentro Sol-Terra-Lua (na verdade, em torno do baricentro do Sistema Solar) dura 365,256363 dias. Portanto, de forma simplificada, a Terra se move ao redor do Sol, em média, 3548,192807” por dia, enquanto a Lua se move ao redor da Terra 47434,889542” por dia. A diferença entre as médias de velocidades angulares é 43886,696735” por dia, logo, para completar 1296000” (isto é, 360º), leva 29,530589 dias. 
 
2:48 O calendário moderno é uma mistura de calendário solar e lunar, por isso temos coisas confusas como anos-bissextos e similares”. 
 
Há vários calendários modernos, entre os quais os mais amplamente utilizados são o Gregoriano, o Hebraico e o Muçulmano. O calendário Gregoriano é solar, enquanto o Judaico é Lunissolar e o Islâmico é lunar. 
 
O termo “calendário misto”, no contexto dos calendários, não tem relação com os astros usados na sincronização, mas com o fato de serem empíricos ou teóricos (ou ambos). Portanto há aí uma confusão ao citar calendários lunares, solares e mistos, como se fossem três categorias diferentes com base no astro de referência. As categorias baseadas no astro de referência são lunar, solar e lunissolar. Os lunissolares não são a mesma coisa que “mistos”, que no jargão dos calendários significa “com finalidade empírica e teórica” e não depende de ser baseado no Sol ou na Lua, de modo que pode haver calendários lunares-mistos, solares-mistos e lunissolares-mistos. 
 
Em relação ao ano bissexto, não tem nenhuma relação com a Lua. O motivo de existirem anos-bissextos é porque os antigos calendários egípcios tinham 365 dias, e a finalidade dos calendários era determinar os melhores períodos para plantio e colheita. 
 
As primeiras tentativas de medir os intervalos em que as estações do ano se repetiam foram muito inacuradas, resultando em cerca de 360 dias. Rapidamente se constatou que a duração real do ano tropical era mais longa e as épocas favoráveis para colheitas deixavam de coincidir com as previsões em poucas décadas, exigindo uma reformulação. Por isso se passou a dotar um calendário de 365 dias, que continuou a ser usado até cerca de 46 a.C. Nessa época, a melhor medida que se tinha para a duração do ano tropical era cerca de 365,25 dias, o que levou Júlio César a adotar esse valor como referência, e foi criado o calendário Juliano, que tinha 1 ano bissexto de 366 dias intercalado com 3 anos regulares de 365 dias, perfazendo uma duração média de 365,25 dias. O calendário Juliano continuou a ser utilizado durante mais de 1500 anos. 
 
Como a duração correta do ano tropical é cerca de 365,2422 dias, ainda havia um pequeno resíduo que foi se acumulando ao longo dos séculos e na segunda metade do século XVI o papa Gregório XIII convocou alguns dos melhores astrônomos da época para fazer uma reforma do calendário, que a partir de 15/10/1582 passou a ter 365,2425 dias, com anos regulares de 365 dias, e anos bissextos de 366 dias quando o ano fosse divisível por 4, exceto quando fosse divisível também por 100, em cujo caso teria 365 dias, exceto quando fosse divisível também por 400, em cujo caso teria 366, por isso o ano 2000 foi um caso bastante particular de uma exceção entre as exceções. Os anos 1700, 1800 e 1900 não foram bissextos, embora sejam múltiplos de 4, mas 2000 foi bissexto. A maioria dos países não aderiu imediatamente à mudança, inclusive a data de nascimento de Newton é citada em algumas fontes como 4/1/1643, enquanto outras fontes citam 25/12/1642, pois na época de seu nascimento a Inglaterra ainda não havia adotado o calendário Gregoriano. 
 
3:36 “Um desses cometas foi observado no ano 164 a.C. e possivelmente foi observado por Ptolomeu.” “(...) nessa época Ptolomeu já era um homem de idade (...)”
 
Ptolomeu viveu cerca de 300 anos depois, no século II d.C. Além disso, um detalhe de menor importância é que a passagem periélica do cometa de Halley ocorreu em junho de 163 a.C. 
 
3:55 “Os planetas, o Sol e a Lua se moviam em círculos perfeitos em torno da Terra”. 

Além do comentário incorreto, a animação usada para representar o modelo geocêntrico de Ptolomeu nunca foi teve esse aspecto. O sistema de Ptolomeu, assim como os de seus predecessores (Eudoxo, Aristóteles, Apolônio etc.) tinham epiciclos em cada orbe, isto é, os planetas não giravam em órbitas circulares diretamente me torno da Terra, mas sim em epiciclos cujos centros ficavam presos em cada órbita orbita circular, e os centros destes epiciclos é que giravam em torno da Terra. No caso específico do modelo de Ptolomeu, havia uma complexa estrutura com epiciclos sobre outros epiciclos, num total de 54, se não me engano, mais complexo e mais preciso que os modelos de seus predecessores. Além dos epiciclos, estes modelos possuíam outros elementos geométricos para promover um melhor ajuste da teoria aos dados empíricos. O gradiente, o equante, o deferente, o excêntrico eram alguns dos componentes geométricos desses modelos. 
 
Outro problema é que não eram “os planetas, o Sol e a Lua”. Eram simplesmente “os planetas”, pois na época o Sol e a Lua também eram classificados como planetas. 
 
4:34 Afirma que Ptolomeu teria criado os epiciclos. 
 
Na verdade, os epiciclos (com o nome de esferas homocêntricas) já existiam desde os modelos de Eudoxo, 500 anos antes de Ptolomeu. E o modelo de Ptolomeu era mais complexo do que o exibido na animação, incluindo vários epiciclos sobre outros epiciclos. Além disso, o modelo de Ptolomeu não era geocêntrico. Seu modelo incluía equante, portanto era apenas geostático (Terra imóvel), mas a Terra não ficava precisamente no centro. Esse ajuste é um refinamento importante porque deixa o modelo mais semelhante ao de orbitas elípticas, colocando a Terra numa posição que seria equivalente a um dos focos da elipse, porém sem achatar as órbitas, que permaneciam circulares. 
 
4:51 Afirma que Copernico provavelmente observou o cometa de Halley. 
 
Copérnico era essencialmente um teórico, e na biografia de Copérnico na coleção “Gênios da Humanidade”, Asimov comenta que talvez Copérnico nunca tenha chegado a observar Mercúrio. Mercúrio atinge elongações de até 28º em relação ao Sol, e chega a mv -1,9, produzindo-se centenas de ocasiões favoráveis para se observar Mercúrio ao longo da vida de Copérnico. Mesmo assim é possível que Copérnico nunca tenha observado Mercúrio. O cometa de o Halley atingiu mv 0 em 1531, cerca de 1/6 do brilho de Mercúrio, e com poucas oportunidades favoráveis à sua observação, além de a elongação solar ser pequena, como a da maioria dos cometas com periélio a menos de 1 UA. Não conheço alusão ao fato de Copérnico ter observado o Halley, o que provavelmente seria citado se tivesse ocorrido. Então esse comentário de que “provavelmente Copérnico observou o Halley” não está amparado nos fatos conhecidos sobre Copérnico. Ao contrário, o mais provável é que Copérnico nunca tenha observado o cometa de Halley. 
 
5:00 “Copérnico não foi o primeiro a propor que Ptolomeu estivesse errado, mas foi o primeiro a ser influente o suficiente para tornar essa ideia famosa”. 
  
Há várias incorreções nessa afirmação. Em primeiro lugar, Copérnico não propôs que Ptolomeu estivesse errado. Copérnico apenas sugeriu reposicionar o Sol como centro do Sistema Solar para simplificar os cálculos, sem a pretensão de que seu modelo fosse uma melhor representação da realidade. Claro que essa prudência de Copérnico pode ter sido influenciada pelo receio de que a Inquisição o condenasse por heresia, mas independentemente de quais foram suas motivações, o fato é que ele propôs que Ptolomeu estivesse errado. 
 
Outro ponto é que, desde Ptolomeu, o primeiro a apresentar um modelo diferente e com acurácia similar foi Copérnico. Portanto, foi o primeiro, já que Aristarco, além de ter vivido antes de Ptolomeu (logo não poderia “ter dito que Ptolomeu estava errado” nem ter se oposto às ideias dele), não chegou a formular um modelo quantitativo detalhado, como o fez Copérnico (se Aristarco chegou a fazer algo assim, não chegou ao nosso conhecimento, talvez tenha sido destruído no incêndio da biblioteca de Alexandria). Oresme chegou a apresentar hipóteses heliocêntricas, mas não se conhece modelos quantitativos precisos que ele tenha chegado a elaborar, sendo possível que ele tenha apenas especulado sobre o assunto. Assim, Copérnico foi provavelmente o primeiro nisso. 
 
Mas o ponto principal é que o motivo de o modelo copernicano ter conquistado alguns adeptos e ter posteriormente inspirado os trabalhos de Kepler nada tem a ver com “influência”, assim como a adoção do modelo Aristotélico, aprimorado por Ptolomeu, durante quase 2000 anos, nada teve a ver com “influência”, mas sim com melhor argumentação. Copérnico não era político, nem publicitário, nem “influencer”. Era um cientista, que trabalhava com fatos, equações e argumentos lógicos. O sucesso de seu modelo se deve à sua habilidade para argumentar e à qualidade de seu trabalho geométrico como ferramenta para prever as posições dos planetas com mais simplicidade e com equivalente acurácia, isso nada tem a ver com “influência”. 
 
Embora seja apenas uma palavra mal utilizada, o significado que essa palavra carrega é terrível e avassalador, porque faz a Ciência parecer uma atividade vulgar como outra qualquer, como se a Ciência fosse construída por preferências individuais, afinidades pessoais, acordos políticos etc. Claro, parte da Ciência marrom (Freud, Cyril Burt, e outros que seriam mais bem classificados como pseudocientistas) é construída assim, mas a boa Ciência não. É como perguntar a uma pessoa se ela acredita na Teoria da Gravitação. Tal pergunta seria uma ofensa gravíssima a Newton e a sua obra, porque não é questão de acreditar. Há uma série de demonstrações rigorosas de teoremas geométricos no Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica que provam que, se determinados axiomas forem adotados como representativos da Natureza, então necessariamente a gravidade deve atuar conforme ele descreve. Não há margem para discordar. 
 
A pessoa pode compreender as demonstrações ou não compreender as demonstrações, mas não existe a possibilidade de “não acreditar” porque não é algo que depende de crença. A pessoa poderia não aceitar como válido um ou mais dos axiomas, mas neste caso precisaria propor axiomas melhores e reformular toda a Teoria de modo consistente com o novo axioma, como fez Einstein. E essa mudança de axiomas também precisa ser amparada em fatos empíricos para que faça algum sentido. No caso da Teoria da Relatividade Especial, a necessidade de rever os axiomas surgiu devido aos resultados das experiências de Michelson e Morley, e a Teoria da Relatividade Geral seria um desdobramento natural, inclusive Einstein já tinha uma ideia clara sobre as bases da Relatividade Geral na época que publicou sua Teoria da Relatividade Especial, em 1905, mas não conhecia a Matemática necessária para conferir às suas ideias o formalismo de que precisavam. Portanto, embora os experimentos de Michelson e Morley tenham levado inicialmente do desenvolvimento da Teoria da Relatividade Especial, as mudanças que essa teoria exigia já implicavam a necessidade de uma reformulação também da Teoria da Gravitação. 
 
Por isso a grande maioria das pessoas odeia Ciência e Matemática, porque as pessoas têm preguiça de pensar e gostam de liberdade para acreditar em qualquer bobagem que lhes apeteça, enquanto a Ciência é absolutamente tirânica e restringe ao extremo a liberdade do que se pode pensar. Por outro lado, como recompensa, a Ciência proporciona uma compreensão de como a Natureza funciona, pois só permite pensar algo que tenha altas probabilidades de ser uma representação acurada e abrangente da Natureza. E com essa melhor compreensão da Natureza, pode-se construir aviões, vacinas, desenvolver técnicas cirúrgicas, melhorar a segurança, saneamento, qualidade de vida, prolongar a vida, entre muitas outras vantagens. 
 
Ironicamente, muitos falam em “liberdade de pensamento” como se fosse algo positivo, quando na verdade a liberdade de pensamento serve apenas para se cometer mais erros. Um dos maiores benefícios proporcionados pelo estudo da Ciência e da Matemática é justamente reduzir ao extremo o número de pensamentos que tenham boas probabilidades de serem razoavelmente corretos, adequando-os a protocolos que minimizam os riscos de erros. Em poesia a pessoa é livre para pensar sobre fadas, duendes e papai Noel, mas por esse caminho a humanidade estaria ainda vivendo em cavernas imundas, junto com ratos e morcegos, passando fome a vida inteira, disputando com hienas e urubus por alguns restos de carniça em estado de decomposição, morrendo aos 17 anos de idade, desdentados e mutilados. O que nos tirou dessa realidade e nos proporcionou uma civilização tecnológica foram a Matemática e a Ciência, impedindo que os pensamentos vagassem aleatoriamente sobre qualquer bobagem, focando nas linhas de raciocínio mais promissoras. 
 
Por isso quando se diz que as ideias de Copérnico prosperaram porque ele foi mais “influente” que seus predecessores é um erro gravíssimo. As ideias de Copérnico prosperaram porque os argumentos dele foram melhores.  
 
Os argumentos de Aristarco a favor do heliocentrismo se resumiam ao fato de que o Sol era maior que a Terra (Aristarco foi o primeiro a calcular o tamanho do Sol, como sendo cerca de 7 vezes maior que a Terra), e ele achava estranho que o corpo maior girasse em torno do menor. Por isso ele defendia que o Sol deveria ficar no centro. Um argumento bastante frágil, se comparado aos argumentos de Aristóteles. Por isso os cientistas dos 20 séculos seguintes preferiram o modelo Aristotélico. 
 
Os argumentos de Aristóteles contrários ao heliocentrismo eram muito mais fortes, baseados na inexistência de paralaxe estelar mensurável, na queda dos corpos ser praticamente retilínea, na ausência de força centrífuga que lançasse os objetos para longe da superfície etc. Embora Aristóteles ainda não soubesse exatamente como calcular a pseudo-força centrífuga, já se sabia de sua existência e se sabia que estava relacionada à velocidade de rotação. Sabia-se também que a velocidade de rotação da Terra, caso ela girasse 1 vez por dia, seria da ordem de 2500 km/h, pois Aristóteles havia medido a circunferência da Terra em cerca de 400.000 stadia (posteriormente, em torno de 250 a.C. Arquimedes aprimorou o cálculo para 300.000 stadia e Eratóstenes em torno de 240 a.C. para 252.000 stadia). Com essa velocidade de rotação, para o que se conhecia de Física na época, não havia como explicar que os objetos não fossem lançados para longe da superfície, além disso, se a Terra girasse deveria haver ventanias intensas, os corpos cairiam em diagonal ficando para trás (Oeste) etc. 
 
Copérnico nunca chegou a apresentar argumentos adequados para se opor à Física Aristotélica. Oresme e Buridano chegaram a contestar adequadamente algumas ideias de Aristóteles e Buridano chegou inclusive a fazer alguns experimentos, mas foi Galileu quem efetivamente refutou grande parte dos fundamentos da Física Aristotélica, enquanto Kepler mostrou que um modelo com órbitas elípticas era muito mais acurado e mais simples que os anteriores. 
 
Portanto, “influência” não teve relação com o sucesso dos modelos cosmológicos de Copérnico, Ptolomeu ou Aristóteles. Suas ideias foram aceitas porque seus argumentos eram os melhores. A partir do momento que surgiram outros personagens com melhores argumentos e com fatos experimentais que contrariavam os modelos anteriores, estes acabaram sendo adotados. 
 
Parei nesse ponto. Em dois minutos e meio de vídeo há uma quantidade suficiente de problemas que desencorajam prosseguir. Dei apenas uma olhada em 3 pontos aleatórios mais adiante no vídeo, e a densidade de erros continua muito alta, em cada trecho de poucos segundos já ocorrem alguns erros, por isso comentarei brevemente só os 3 instantes aleatórios, com uns 15 segundos cada, que cheguei a ver daqui em diante. 
 
11:15h aparece uma elipse com os dois focos representados em posições gravemente incorretas. 
 
19:00 “a força da gravidade é a massa dos corpos multiplicadas vezes uma constante dividida pela distância deles ao quadrado”
 
Esse erro não é culpa dele, pois está presente em praticamente todos os livros, inclusive de ensino superior (Halliday e Resnick, Moyses Nussenzveig etc.). A expressão correta não é 
 
F = GMm/r^2
 
Sendo r a distância entre os baricentros dos corpos. 
 
A correta é:  
 
F = G(M+m)m/r^2
 
Ou o significado de r deveria ser a distância do baricentro de cada corpo ao baricentro do sistema. 
 
29:00 “Urano foi observado pela primeira vez em 1781”
 
Urano, Netuno e Plutão foram observados várias vezes antes de serem oficialmente descobertos. Como Urano tem mv 5,5, é visível inclusive a olho nu e muito provavelmente foi observado várias vezes desde a pré-História, inclusive antes de existirem humanos. Se as retinas dos dinossauros tivessem bastonetes tão sensíveis quanto os novos, e em quantidades muito maiores, com certeza eles viam facilmente Urano e até Netuno. Além disso, há registros precisos com a posição de Urano (catalogado como se fosse estrela) muito antes de ele ter sido oficialmente descoberto por Herchel. No caso de Netuno, foi registrado inclusive por Galileu, mais de 200 anos antes de ser oficialmente descoberto por Le Verrier, porém infelizmente Galileu, ao observar Netuno pela segunda vez, achou que havia anotado incorretamente a posição e apenas revisou o registro, em vez de imaginar que o objeto poderia ter se movido. 
 
Mais detalhes no meu artigo sobre a descoberta de Urano e nos comentários de minha foto no aniversário da descoberta de Plutão. 

https://www.saturnov.org/urano 
 

Foto

30:10 Pelo que entendi, ele finalizou sem citar a sequência da História da Teoria da Gravitação, com as contribuições de Einstein, Minkowski, Hilbert, Schwarszchild, Tolman, Kerr, Newman, Hawking, Thorne etc. 
 
Para encerrar, gostaria de fazer mais alguns comentários sobre fake News: se as fake News fossem eliminadas, o mundo ficaria melhor sem elas, pois não contribuem em nada e ainda disseminam informações frequentemente nocivas e incorretas. Mas no caso de um vídeo de divulgação que contenha alguns erros é completamente diferente, porque mesmo com os erros continua sendo muito positivo e acaba sendo melhor que se aprenda o conteúdo com os erros do que não ter conhecimento nenhum sobre o tema. Esses vídeos servem como um estímulo inicial para que a pessoa comece a se interessar por alguns dos tópicos abordados e, em seguida, a pessoa se aprofunde até o ponto que desejar. Naturalmente seria preferível que as informações transmitidas fossem corretas, mas entre a divulgação incorreta e nenhuma divulgação, não há dúvida de que seja preferível a divulgação incorreta. Claro que depende também da gravidade dos erros. Divulgar que vacinas causam síndrome de Down ou que hidroxidocloroquina ajuda a combater o COVID-19 são piores do que não divulgar nada, pois levam as pessoas a se expor a riscos injustificados a troco de nada. 
 
Enfim, parabéns ao Pedro pelo trabalho e espero que melhore nos próximos. 

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