O UNIVERSO PODE NÃO ESTAR SE EXPANDINDO SIMETRICAMENTE

17 de abril de 2020

Por Hindemburg Melão Jr

 

Hoje deparei com um péssimo artigo cujo horrível título é: “Teoria amplamente aceite sobre a expansão do Universo acaba de ser desfeita”. O texto é tão ruim quanto se pode deduzir do título, mas a descoberta anunciada é extremamente interessante e importante. O artigo que foi postado é esse:  
 
https://zap.aeiou.pt/teoria-expansao-universo-desfeita-318463?fbclid=IwAR21TqwvC76iVgzsvQ1bQuePJX46Z4WGGBKBAJanpOZOOo94sfZ_HpBRBao
  
Não foi “desfeita” nenhuma teoria, e o próprio artigo original cita precedentes com resultados similares, portanto não parece envolver uma descoberta em primeira mão, como sugere a reportagem acima. 
 
O texto original que aparentemente deu origem a esse artigo é: 
  
https://www.aanda.org/component/article?access=doi&doi=10.1051/0004-6361/201936602
 
De forma resumida, o estudo mostra que em nossas imediações o Universo parece estar se expandindo mais rapidamente numa direção do que na direção oposta. Além disso, em todas as outras direções intermediárias, o Universo parece estar se expandindo a velocidades gradualmente intermediárias. 
 
A amostra incluiu 313 aglomerados de galáxias situados a menos de z=0,45, porém a mediana da amostra é de apenas z=0,07, por isso pode não ser representativa do que ocorre numa escala mais ampla. 
 
Mesmo que o estudo inclua predominantemente estruturas locais, o resultado me pareceu extremamente interessante e surpreendente, além de ter boas chances de ser representativo do que ocorre em escalas maiores, ou pelo menos fornece pistas de que é possível que em escalas maiores ocorra algo similar. 
 
Não li o artigo original inteiro e, até onde li, não encontrei trecho em que fosse citado se foi descontado o movimento próprio do Sistema Solar em relação à radiação de fundo, o que seria a primeira explicação lógica para o efeito observado (se as diferenças de velocidades fossem similares). Mas até onde li (pulando alguns trechos), suponho que os autores muito provavelmente devem ter descontado esse e outros efeitos que poderiam ser explicações mais óbvias. Por exemplo: foi descontada a absorção de raios-X, objetos com desvio para o vermelho muito baixo (nos quais o movimento próprio acaba contaminando a velocidade de recessão) e a metalicidade do núcleo. 
   
Este artigo também cita estudos anteriores, com medidas baseadas em outra seleção de aglomerados de galáxias, cujos resultados obtidos foram muito semelhantes, totalizando 842 objetos observados em 3 estudos independentes, todos consistentes na constatação do mesmo efeito. 
  
Descartados os motivos mais “naturais”, meu primeiro “palpite” seria que a distribuição de matéria numa escala maior poderia compensar essa anisotropia local, e quando as pesquisas passarem a cobrir uma escala mais ampla, possivelmente se constatará que os resultados experimentais estão de acordo com o modelo vigente. 
 
Outra possibilidade um seria a influência gravitacional de estruturas externas ao nosso Universo. Há alguns anos, foi publicado um estudo mostrando que o spin das galáxias espirais também se distribui de forma assimétrica e seria muito interessante se esses dois estudos fossem investidos conjuntamente, para verificar como a distribuição dos spins se relaciona com a distribuição das assimetrias na velocidade de expansão.  
 
Também é importante verificar se o mesmo efeito é observado utilizando outras metodologias. Os autores do estudo se basearam na temperatura de luminosidade de fontes de raios X, e citaram também estudos de outros autores que utilizaram supernovas do tipo Ia, o que reduz a probabilidade de que seja algum vício do método, já que resultados equivalentes foram encontrados por metodologias diferentes.  
  
O gráfico a seguir mostra muito claramente que o efeito verificado é muito bem definido, e no mínimo pode representar um primeiro indicio de que as estruturas no Universo se organizam em mega-estruturas muito maiores do que se pensava: 

 

A assimetria observada parece ser significativa a pelo menos 3 desvios-padrão. Como o efeito foi observado com diferentes metodologias, parece refletir uma realidade, e bastante diferente do que estava previsto pelo modelo de Friedmann–Lemaître–Robertson–Walker. Ainda que a região observada e a época observada sejam relativamente estreitas no espaço e no tempo, os resultados são muito diferente do esperado inclusive para nossa região e nossa época. 
  
Agora ficamos no aguardo de investigações que cubram regiões mais amplas, para conferir se o efeito está igualmente presente. 
 
Minha aposta é que os filamentos que determinam a distribuição da matéria no espaço têm propriedades fractais em todas as escalas de fragmentação, por isso quanto maior a escala observada, maior a isotropia e a homogeneidade, se comparadas a escalas menores. Mas em nenhuma escala atinge um nível muito alto de isotropia, homoscedasticidade e homogeneidade, como ocorre em estruturas Euclidianas ou Minkowskianas. O modelo cosmológico, para ser uma representação mais fidedigna da realidade observável, precisaria dar uma abordagem fractal à estrutura determinada pela distribuição da matéria e da energia ao longo do espaço. 
 
Também seria interessante verificar se essas características também estão presentes nas simulações e, caso não estejam, quais parâmetros precisariam ser modificados para tornar as simulações mais representativas da realidade. 
 
Enfim, achei bastante interessante e parece que os avanços nesse campo estão evoluindo a um bom ritmo. 

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