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POLÊMICA SOBRE DESIGUALDADE SALARIAL, UMA ANÁLISE CIENTÍFICA

Por Hindemburg Melão Jr

Em 30/08/2018 assisti a um trecho de um vídeo no qual Bolsonaro e Renata Vasconcellos “romperam relações diplomáticas” ao abordar um tema bastante antigo e bastante polêmico.

 

O trecho que assisti é este: https://youtu.be/vd7l-CUtSmw

 

Por volta de 2001, escrevi um artigo sobre tema semelhante, quando a FIDE (Fédération Internationale des Échecs) propôs extinguir competições femininas de Xadrez, sob a alegação de que as mulheres têm mesma capacidade que os homens para jogar Xadrez. Meu ponto de vista naquela época é basicamente o mesmo que tenho hoje, porém há algumas semelhanças e algumas diferenças fundamentais entre o caso da extinção de torneios femininos e as diferenças salariais entre gêneros: Começarei analisando brevemente o caso da FIDE.

 

Um dos motivos que levou a FIDE a considerar a extinção de torneios femininos é que Judit Polgar, a melhor jogadora de todos os tempos, chegou a ficar vários anos entre os 10 melhores do mundo no ranking mundial masculino. Mas há vários erros nessa tese. Em primeiro lugar, uma amostra com 1 elemento não é estatisticamente válida, e mesmo que Judit fosse a número 1 no ranking masculino, não ofereceria respaldo à tese da FIDE. Pior ainda sendo ela a única mulher entre os 10 primeiros, e ela nunca tendo chegado a número 1 (a melhor classificação que ela teve foi 8º).

 

Atualmente, se expandisse a amostra para o top-100, seria constatado que no ranking mundial dos 100 melhores há somente 1 mulher, portanto é evidente que no topo do ranking os homens apresentam desempenho melhor nessa modalidade. Se houvesse igualdade de gênero no Xadrez, seria esperado encontrar cerca de 50% de homens e 50% de mulheres. Em segundo lugar, mesmo quando se faz a comparação entre a média da população, verifica-se que o desempenho dos homens no Xadrez é melhor que o das mulheres. Há estudos com crianças e adolescentes de diferentes faixas etárias, em diferentes modalidades esportivas e em diferentes atividades intelectuais, nas quais se verifica que o desempenho das meninas é semelhante ao dos meninos até cerca de 11 anos de idade, inclusive as meninas costumam ser um pouco mais altas e mais fortes que os meninos antes dos 11 anos. Contudo, aproximadamente a partir dos 11 anos, as meninas e os meninos começam a produzir hormônios diferentes, que influenciam no desenvolvimento físico, intelectual e personalógico.

 

Por isso os meninos começam a crescer mais rápido, ficar mais fortes, com raciocínio mais orientado para matemática e lógica, com melhor coordenação motora para atividades como luta e uso de armas para caça, enquanto as meninas vão desenvolvendo mais a linguagem, a coordenação motora fina para atividades como dança e bordado, a capacidade de leitura fria para reconhecer microexpressões faciais e corporais. Esse efeito é muito bem conhecido e amplamente estudado, inclusive muitas atletas de elite tomam hormônios masculinos para melhorar o desempenho. Antes de chegar à idade de 11 anos, meninos e meninas são mais semelhantes entre si do que depois dessa idade.

 

No Xadrez esse fato é bem conhecido e documentado: as performances médias de meninas e meninos são muito semelhantes antes dos 11 anos, mas depois disso os meninos começam, em média, a ter performances sensivelmente melhores. Isso não se observa apenas no Xadrez, mas também nas notas de Matemática e performance em Educação Física, ao passo que as meninas passam a ter melhores notas em Redação, Gramática e Educação Artística.

Num estudo realizado por Lewis Terman a partir de 1916, com 1526 crianças com QI acima de 135, Terman constatou que até 14 anos o desempenho médio das meninas era semelhante ao dos meninos, no escore global, porém a maioria dos pontos nesses escores eram obtidos em questões de linguagem e interpretação de textos pelas meninas e em questões de aritmética pelos meninos. Lembrando que no início do século XX a puberdade era atingida numa idade maior do que no século XXI, portanto o desenvolvimento fisiológico de 14 anos naquela época corresponde a aproximadamente 12 anos agora, tendo boa correspondência com os estudos de Xadrez sobre haver desempenho similar até cerca de 11 anos de idade.

Portanto não existem elementos para fundamentar a proposta da FIDE de extinção de torneios femininos de Xadrez (nem em qualquer outra modalidade esportiva), com base na igualdade de gênero. Aliás, os fatos mostram justamente uma nítida desigualdade de gênero. Quando se observa o desempenho na média da população masculina e na média da população feminina em diferentes atividades, verifica-se que os homens se sobressaem em algumas atividades, enquanto as mulheres se sobressaem em outras, portanto existem muitas diferenças de gênero que precisam ser investigadas, conhecidas e respeitadas.

Além disso, outro fator importante a ser considerado é que a dispersão entre níveis de habilidades é maior entre homens do que entre mulheres, e isso acontece tanto nas atividades nas quais os homens se sobressaem na média quanto nas atividades em que as mulheres se sobressaem na média. Nos testes de QI, por exemplo, o desvio-padrão para mulheres é cerca de 13,5 pontos enquanto o desvio-padrão para homens é cerca de 18. Isso significa que embora o QI médio das mulheres seja igual ao QI médio dos homens, quando se considera os níveis mais elevados, verifica-se que os homens mais inteligentes são mais inteligentes que as mulheres mais inteligentes. Como a distribuição dos escores é aproximadamente simétrica, no extremo oposto verifica-se que os homens menos inteligentes são menos inteligentes que as mulheres menos inteligentes. Por isso a quantidade de homens ganhadores de prêmios Nobel e outros prêmios científicos é maior que a quantidade de mulheres. E no extremo oposto se verifica que a quantidade de homens com distúrbios mentais, criminosos, etc. também é maior

Se considerar os 2% de homens com melhores escores em testes de QI, eles terão QI médio em torno de 143 (cut-off 136) enquanto o QI médio das mulheres com 2% de melhores escores é cerca de 131 (cut-off 127).

Há um meta-estudo conduzido por Richard Lynn, com centenas de milhares de homens e mulheres de diferentes países, faixas etárias, níveis educacionais, etnias etc., nos qual ele constatou que o QI médio das mulheres é cerca de 4 pontos menor que o QI médio dos homens, mas há vários pontos contestáveis neste e em outros resultados apresentados por Lynn. Um dos problemas é que o teste utilizado na maioria dos estudos é o RSPM, focado em habilidades que os homens geralmente apresentam mais desenvolvidas. Se fosse utilizado outro teste, o resultado encontrado provavelmente também teria sido diferente. Além disso, Lynn excluiu resultados do México de seu estudo, que foi interpretado por ele como outlier. Se ele mantivesse os resultados do México, não haveria diferença estatisticamente significativa entre homens e mulheres. E o principal motivo é que Lynn parece particularmente interessado em estudos sobre diferenças raciais e de gênero, e tem opiniões pré-formadas sobre estes temas, o que influencia o planejamento e a interpretação de seus experimentos, bem como influencia na seleção de experimentos alheios que ele utiliza para tentar apoiar as teses que ele defende. O erro básico de Lynn, e que invalida boa parte das conclusões que ele apresenta, é que em vez de fazer estudos imparciais para reunir dados experimentais e depois tentar formular uma teoria para explicar esses dados, ele parte de uma hipótese a priori e seleciona dados convenientes para corroborar a hipótese que ele gostaria de defender. Embora Lynn seja Professor Emérito, não é assim que se faz Ciência séria.

Apesar das críticas que possam ser feitas às metodologias e conclusões apresentadas por Lynn, há vários estudos com resultados equivalentes. O gráfico abaixo mostra a distribuição de QIs em homens (azul) e mulheres (vermelho) e a proporção (pontilhado preto) de raridade entre os gêneros,

O que se pode observar é que além de uma pequena diferença na posição do ponto médio, a curva para os homens é mais achatada, ou seja, a dispersão é maior. Como resultado disso, quanto mais alto o nível considerado, maior é a proporção entre homens e mulheres no respectivo nível. Para 3 desvios-padrão acima da média, por exemplo, a proporção entre homens e mulheres é cerca de 8:1. Isso é consistente com a abundância relativa de homens e mulheres entre os primeiros no ranking de Xadrez, em que o nível de raridade corresponde a cerca de 5 desvios-padrão acima da média e a proporção observada é cerca de 100:1.

Embora se possa criticar a maneira como o QI é medido e colocar em dúvida as interpretações dos resultados, quando se compara as curvas de altura de homens e mulheres (abaixo à esquerda), percebe-se um efeito muito semelhante. Como existe correlação entre QI e altura, ainda que seja uma correlação fraca, os dados observados sobre a altura corroboram os dados sobre QI. Um efeito semelhante se observa também no desempenho em provas de Matemática (abaixo à direita), em que o desempenho médio dos homens é um pouco melhor e também a dispersão é um pouco maior.

Em diversas outras características se verifica resultados semelhantes, em que a distribuição da tal característica nos homens tem maior dispersão. Em relação ao ponto médio, em alguns casos as mulheres ficam mais bem posicionadas, em outros casos os homens ficam mais bem posicionados, mas na grande maioria das vezes a dispersão é maior entre homens.

Os dois gráficos abaixo mostram os escores de QI em crianças de 6 a 16,5 anos (esquerda) e em adultos (direita). Pode-se notar que em crianças o desempenho é bem mais semelhante, com média 101,4 para meninas e 103,1 para meninos. O desvio-padrão também é mais semelhante: 13,5 para meninas e 14,5 para meninos, sendo que praticamente toda a diferença é produzida nos escores de crianças acima de 11 anos. Se a amostra incluísse exclusivamente crianças até 11 anos, a expectativa seria que não houvesse diferença estatisticamente significativa.

Também é muito importante enfatizar que há estudos nos quais os resultados sugerem que as mulheres são, em média, mais inteligentes que os homens, e o motivo pelo qual os escores em testes de QI convencionais são favoráveis aos homens se deve aos itens que constituem esses testes. Em questões que privilegiassem habilidades linguísticas, associações, analogias, compreensão de textos, interpretação de fisionomias e linguagem corporal, as mulheres pontuam melhor que os homens.

Talvez o estudo mais amplo sobre diferenças entre gênero em desempenho intelectual seja a meta-análise citada no artigo New Trends in Gender and Mathematics Performance: A Meta-Analysis, que reúne 242 estudos realizados entre 1990 e 2007, com um total de 1.286.350 pessoas examinadas. O resultado não mostra evidência de diferença no desempenho em função do gênero.

Infelizmente a grande maioria desses estudos são prejudicados por tendências pessoais dos investigadores, que partem de suas opiniões a priori e tentam selecionar dados convenientes para apoiar suas teses. Quando os autores dos estudos são mulheres, geralmente os resultados indicam que não há diferença de gênero ou que as mulheres são mais inteligentes. Quando os autores dos estudos são homens, dependendo das opiniões a priori destes homens, os resultados mostram que os homens apresentam melhor desempenho. Esse viés produzido pelas opiniões dos pesquisadores é um problema grave no meio acadêmico e não afeta apenas questões polêmicas como esta, mas também muitas outras.

Algumas variáveis como altura, por exemplo, variam com a idade de forma desigual entre meninos e meninas, sendo que no nascimento os meninos são um pouco maiores, depois as meninas se tornam um pouco maiores e permanecem maiores até cerca de 11 anos, depois os meninos voltam a ficar maiores. Portanto o resultado da pesquisa sobre quem é mais alto, homem ou mulher, depende da faixa etária considerada. A porcentagem de pessoas na população também varia com a idade. Nascem mais meninos do que meninas, porém as mulheres tem expectativa de vida mais longa, por isso a população de crianças tem predominância de meninos, enquanto a população adulta tem predominância de meninas. Isso varia também com a região, cultura, etnia e outros fatores. Em países assolados pela guerra e pela fome, as proporções são diferentes das observadas em países mais prósperos e com melhor qualidade de vida. Em países predominantemente islâmicos a proporção é diferente da observada em países predominantemente cristãos. Os gráficos abaixo mostram a distribuição de gêneros por faixa etária na Estônia e em Bahrein:

Percebe-se uma nítida diferença em praticamente todas as faixas etárias.

O fato é que não existem evidências claras de que a média da população masculina seja mais inteligente ou menos inteligente que a média da população feminina. Há muitos estudos sobre diferenças de gêneros em muitas características biológicas, psicológicas, culturais, étnicas etc., que são úteis em Medicina, para a prescrição mais acurada de dosagem de medicamentos, em Publicidade, para planejamentos mais eficientes conforme o público alvo, e em muitas outras áreas. E uma das variáveis mais amplamente investigadas é o nível intelectual. Há estudos que mostram que em algumas atividades específicas os homens se sobressaem, enquanto as mulheres se sobressam em outras atividades. O que determina qual dos gêneros terá maior escore global no teste depende da seleção dos itens. Se o autor do estudo quiser defender a tese de que os homens são mais inteligentes e ele selecionar testes nos quais os itens favorecem os homens, ele encontrará o resultado que deseja. Se o autor quiser mostrar que as mulheres são mais inteligentes e selecionar itens com esse propósito, ele também encontrará os resultados convenientes para apoiar sua tese.

Por outro lado, existem evidências muito claras de que a dispersão entre níveis de habilidades nos homens é maior do que nas mulheres. Isso significa que numa atividade na qual a média dos homens e a média das mulheres tenham performances semelhantes, quando se considera homens e mulheres muito acima da média, os homens acabarão tendo performance melhor que a das mulheres, e quando se considera homens e mulheres muito abaixo da média, as mulheres acabarão tendo performance melhor que a dos homens.

Portanto, quando se trata de competições de Xadrez, em que os prêmios são conferidos aos melhores da modalidade, e por se tratar de uma modalidade na qual a média dos homens acima de 11 anos apresenta resultados melhores que a média das mulheres acima de 11 anos, não seria aceitável a proposta da FIDE de extinguir torneios femininos alegando igualdade de gênero, porque todos os fatos mostram nitidamente, em bases de dados com mais de 7.000.000 de jogos entre homens e mulheres, que existem diferentes claras de gênero nessa modalidade. E a presença de 99: 1 de homens x mulheres entre os 100 primeiros no ranking mundial constitui uma evidência muito forte dessa diferença.

Porém no caso de diferenças salariais, em que algumas atividades são mais bem executadas por mulheres, enquanto outras atividades são mais bem executadas por homens, e as medidas não são feitas entre os melhores, mas sim na média da população, o mesmo argumento que se aplica ao caso do Xadrez não poderia ser utilizado.

É possível que a distribuição ponderada das atividades profissionais exija mais habilidades predominantemente masculinas, e nesse caso, se essa proporção fosse semelhante aos 25% de diferença observada na média dos salários, isso poderia explicar pelo menos parcialmente porque o salário médio dos homens é maior. Porém pode haver muitas outras explicações para isso, sendo que uma delas está relacionada à menor competitividade natural das mulheres. Um dos motivos pelos quais os homens se sobressaem na maioria das atividades esportivas, além de uma estrutura física mais robusta, é que os homens são, por natureza, mais competitivos e mais propensos a assumir riscos, enquanto as mulheres são mais colaborativas e avessas ao risco. Nesse contexto, os homens assumem riscos maiores de não serem contratadas no caso de receberem ofertas que eles não considerem satisfatórias, enquanto as mulheres, em geral, são mais tolerantes e mais propensas a aceitar salários menores em vez de optar por ficar sem trabalhar.

Essa situação é complexa, porque em algumas atividades, como professor(a), médico(a) ou enfermeiro(a), na parte relacionada à habilidade para lidar com crianças, idosos e pessoas que precisam de cuidados com a saúde, as mulheres talvez sejam, em média, mais habilidosas que a média dos homens, e deveriam receber uma remuneração maior que a média dos homens. Porém como elas talvez sejam menos combativas na hora de negociar salários ou estabelecer seus honorários, acabam sendo “penalizadas” por isso e ficam com salários menores, mesmo sendo mais competentes que os homens nessas atividades. Lembrando que estamos falando da média das mulheres e média dos homens, o que já cria alguns vieses, porque num vestibular como o da USP, por exemplo, o QI médio dos aprovados no curso de Medicina é cerca de 125, portanto já não estamos lidando com a média, mas sim com uma faixa bastante seleta dos 5% mais inteligentes, e nesse grupo o desempenho dos homens é melhor que o das mulheres. Além de haver mais homens do que mulheres com QI acima de 125, o QI médio dos homens com mais de 125 é maior que o QI médio das mulheres com mais de 125, porque a dispersão entre homens é maior.

Outro fator a considerar é que como entre os homens mais competentes se espera um nível mais elevado do que entre as mulheres mais competentes, a produtividade (e consequentemente a renda) nesses níveis também será maior entre homens, e como a curva de renda acelera mais rapidamente que a curva de competência, então nos níveis mais altos se espera que pequenas vantagens em competência produzam grandes vantagens em renda, o que acaba empurrando para cima a média dos salários dos homens, mesmo que no grupo de habilidade média haja boa similaridade entre os salários de homens e mulheres.

Seria necessário que essas comparações entre salários de homens e mulheres fossem estratificadas por atividade, por faixa de renda e por região. Em algumas atividades, é esperado que o salário médio dos homens seja maior porque os homens de fato são melhores. Em mecânica de automóveis, por exemplo, ao passo que em outras atividades seria esperado que o trabalho de mulheres fosse mais alto, como enfermagem. Além disso, essa diferença deveria ser medida cortando os 20% maiores salários e os 20% menores salários, para minimizar os efeitos descritos acima. Por fim, seria interessante verificar como são essas diferenças nas várias regiões do país, porque certamente em alguns estudas o nível de sexismo é maior do que em outros.

Em conversa com o amigo João Antonio sobre esse tema, ele comentou: “Acho que há pesquisa abundante demonstrando que não há diferença significativa quando se considera os outros fatores (tempo de trabalho, horas, formação etc.)”. Não tenho certeza se ele se refere ao número de horas semanais em semanas típicas, ou se se refere à média de horas a longo prazo (anos), incluindo ocorrências estatísticas de licenças-gestante, que tornam o total de horas trabalhadas pelas mulheres um pouco menor que o total de horas dos homens.

João também assistiu a algumas palestras de Richard Lynn e apresentou vários dados e argumentos interessantes, alguns dos quais talvez eu adicione num update deste artigo.

Essa questão dos salários é comparativamente menos grave do que um problema muito mais sério, que é a questão do assédio no trabalho. As mulheres que se enquadram no rótulo que os homens interpretam como “bonitas” sofrem muito mais com assédio no trabalho e na fase de seleção e contratação do que por receberem um salário menor. Os homens podem eventualmente sofrer assédio também, mas é bem menos ostensivo e menos abusivo. De outro lado, as mulheres que não se enquadram no estereótipo que os homens interpretam como “bonitas” sofrem porque no processo seletivo, mesmo que elas sejam mais competentes para o cargo, inclusive seus currículos e experiências mostrem que são mais competentes, acabam não sendo contratadas se houver candidatas consideradas pelos contratantes como sexualmente mais atraentes.

Provavelmente menos de 5% dos casos de assédio e abuso no trabalho chegam a ser denunciados, em parte porque as mulheres se resignam a aceitar certos abusos por medo de perder o emprego. Essa situação também interfere na anterior, porque esse medo de perder o emprego ou medo de não ser contratada acaba fazendo com que muitas mulheres aceitem trabalhar em condições piores, inclusive com salário menor e sofrendo outros abusos, o que explica parte da desigualdade de salário entre gêneros. Esse efeito, por outro lado, é parcialmente contrabalançado pelo fato de que algumas mulheres tiram proveito de serem atraentes para “conquistar” cargos melhores e mais bem remunerados do que elas poderiam obter se fossem recompensadas exclusivamente pela competência delas, e isso acaba empurrando um pouco para cima os salários das mulheres em comparação ao salário médio de homens que não contam tanto com essa possibilidade. Eu não saberia dizer qual dos efeitos predomina, mas estimo que aproximadamente se anulem.

Portanto, embora a questão seja complexa, há algumas pistas que ajudam a entender um pouco melhor a desigualdade salarial e tentar encontrar uma solução meritocrática ao “problema”. Um dos caminhos para reduzir a desigualdade salarial sem interferir na recompensa meritocrática seria justamente monitorar e punir condutas de assédio e abuso no trabalho e nas etapas de seleção, assegurando que homens e mulheres mais competentes serão recompensados de forma mais justa em suas respectivas áreas de atuação.

A ideia simplória de igualismo, pagando igual a todos, sem antes verificar se todos produzem na mesma proporção e com mesma qualidade, é um erro primário e conduziria ao colapso da Economia. Não se pode fingir que todos são iguais. O correto é tentar compreender as diferenças e procurar meios para harmonizar e sinergizar o trabalho de todos, respeitando as diferenças e os méritos individuais, e oferecendo incentivos e recompensas justas conforme a qualidade do trabalho de cada um. Esses incentivos são imprescindíveis para que todos sejam encorajados a trabalhar mais e melhor, e cada vez mais se aprimorar para que mereçam melhores recompensas, e as recebam conforme seus méritos. A oferta de recompensas sem méritos tem se mostrado desastrosa em todos os regimes nos quais isso foi testado.

Portanto é isso. O problema não é mulheres terem salário médio maior ou menor que o salário médio dos homens. O problema é que as mulheres, mesmo tendo méritos iguais, recebam menos. Depois de tudo que já foi dito, talvez ainda não seja demais enfatizar que não é em todas as atividades que elas têm méritos iguais. Em algumas atividades elas têm mais méritos e deveriam receber mais. Em outras atividades elas têm menos méritos e deveriam receber menos. Além disso, quando se fala de mulheres em geral e de homens em geral, se está tratando de grandes grupos heterogêneos, nos quais alguns homens produzem mais e melhor que outros homens, e algumas mulheres produzem mais e melhor que outras mulheres. Cada profissional deveria receber conforme seus méritos individuais, conforme sua produtividade individual, em vez de receber conforme seu gênero, etnia, tempo de experiência, graduação acadêmica ou qualquer outro fator. Se uma recém formada de 25 anos exerce suas funções como engenheira melhor do que um doutor em Engenharia de 55 anos, então não importa que geralmente um doutor ganha mais que um bacharel, não importa que um funcionário de 55 anos ganha mais que um de 25 anos, não importa que em média os engenheiros homens são mais competentes que as mulheres. O fato concreto é que aquela bacharel específica de 25 anos produz mais que aquele doutor específico de 55, portanto ela deve receber mais, na proporção de sua produtividade. Com isso se resolveria um problema generalizado que afeta gêneros, etnias, classes sociais de uma só vez.