12 de março de 2020

CORONA VÍRUS E CIRCUIT BREAK

 

Por Hindemburg Melão Jr. 

 

Hoje a Bovespa acionou mais uma vez o circuit break para impedir que a queda prosseguisse desenfreadamente, um artifício que atrapalha o fluxo natural do Mercado e prejudica quem utiliza estratégias eficientes capazes de operar tanto na alta quanto na queda, mas que reduz a velocidade das perdas de quem utiliza estratégias ineficientes, isto é, quase todo mundo, especialmente os grandes bancos. 
 
Como esses eventos ocorreram justamente durante o crescimento da propagação do COVID-19, muitas pessoas estão associando uma coisa à outra. Certamente pode haver alguma relação, inclusive porque todos os eventos que ocorrem no mundo afetam os mercados, e com esse evento não poderia ser diferente, mas a questão é qual o peso dessa possível pandemia nas quedas observadas nas bolsas? Provavelmente o efeito impacto real é muito menor do que se está dizendo. Os mercados já estavam em queda ou na iminência de uma queda muitos meses antes de ser documentado o primeiro caso de COVID-19, e a aceleração na queda é um processo natural depois de certo patamar, independentemente de haver fatores individuais que expliquem uma parte substancial das quedas. Por outro lado, a maneira como se está encarando a disseminação dessa doença, evitando contatos com outras pessoas, o que implica ir menos frequentemente ao trabalho, agendar menos reuniões etc., afeta a produtividade, o que deve impactar no Mercado. O impacto real deve ser menor do que o que está sendo observado nas cotações, porque os especuladores tentam se antecipar aos efeitos que eles estimam, e que geralmente são exagerados, entretanto uma parte do efeito deve ser realmente atribuído à propagação dessa doença. 
 
Esse artigo https://www.valuewalk.com/2020/03/covid-19-outbreak-stocks/ discute a relação do COVID-19 com o Mercado Financeiro e mostra que os efeitos da queda já haviam começado em meados de 2018, muito antes de a epidemia começar. 
 
Um dos pontos críticos mais importantes não é o efeito real que essa possível pandemia deveria ter, mas sim o efeito que está sendo efetivamente observado e o fato de que o Mercado já estava evoluindo para um cenário de baixa muito antes de esse evento ocorrer, portanto o fenômeno está servindo apenas para desencadear um processo que ocorreria de qualquer maneira, mas precisava de um “empurrão inicial” para começar em algumas bolsas e para acelerar em outras bolsas. 
 
Para o Saturno isso é indiferente, já que opera long e short aproximadamente na mesma proporção e com aproximadamente mesma taxa de acertos. Por outro lado, é triste aumentar os ganhos devido a uma calamidade como essa. Eu não gostaria de sofrer perdas, mas até um determinado nível (digamos, uns 20%, ou até um pouco mais) eu preferia sofrer perdas do que assistir à evolução dessa epidemia e o crescente número de mortes. Porém tal escolha não é algo que esteja a meu alcance, e os fatos são que nestes cenários o Saturno costuma lucrar acima do normal, o que não chega a ser um “consolo”, mas é comparativamente menos ruim do que se além da calamidade mundial também houvesse um risco aumentado de perdas, como acontece a quase todos os fundos e outras alternativas de investimentos. Entre os cenários nos quais o Saturno foi testado em DJI, ocorreram muitos eventos tão ou mais graves do que este, inclusive a Primeira Guerra Mundial, a gripe espanhola, a quebra da Bolsa de Nova Iorque, a Segunda Guerra Mundial, o acordo de Breton Woods, outras guerras, desastres, catástrofes, crises e uma grande variedade de cenários, pelos quais o Saturno passou com a mesma segurança que costuma operar em cenários “normais”. 
  
Um ponto que eu gostaria de comentar é sobre os reais riscos no Brasil, que estão sendo gravemente subestimados, devido, em grande parte, à desinformação e, pior ainda, devido a informações incorretas e distorcidas. Por exemplo: a propaganda parcialmente incorreta de que pesquisadores da UFBA desenvolveram métodos muito mais rápidos e mais baratos de detecção, porém nada foi divulgado sobre a eficiência desses exames, que provavelmente são muito menos eficientes e devem produzir uma quantidade muito maior de falsos negativos. Se esses exames oferecessem uma taxa de acertos suficientemente alta para não comprometer a confiabilidade nos resultados, sendo mais rápidos e baratos, o mundo inteiro também passaria a utilizar o mesmo método nos diagnósticos. Não sei se esses testes estão sendo utilizados, ou se apenas fizeram propaganda sensacionalista sobre descobertas científicas que na verdade não ocorreram, ou que não são conforme anunciado. Se esses testes realmente forem bons, como sugerem as matérias publicadas a respeito, espero que o mundo todo desfrute e, ao mesmo tempo, valide os resultados. Caso contrário, espero que os brasileiros tenham o bom-sendo de utilizar testes apropriados. 
 
O Brasil tem 210 milhões de habitantes e 52 casos documentados. A Argentina tem 45 milhões e 20 casos documentados. Considerando aspectos geográficos, turísticos e culturais de ambos os países, seria esperado que o número de casos per capita fosse muito semelhante nos dois países, porém a Argentina tem 2,5x mais casos per capita, o que denuncia a ineficiência dos métodos utilizados para diagnóstico no brasil. Além disso, é provável que na Argentina o número de casos também esteja subestimado, talvez numa proporção de 5:1, então o número real de casos na Argentina deve ser cerca de 60 e no Brasil 300. Ainda podem parecer números pequenos, diante a uma população de 210 milhões, mas quando se considera o ritmo da propagação, se esse ritmo não for desacelerado tremendamente ou paralisado, em questão de poucas semanas toda a população brasileira e mundial estará infectada. 
 
Em 1929, o jornalista Frigyes Karinthy publicou um texto no qual comentava que cada pessoa no mundo está conectada a qualquer outra em 6 níveis de encadeamento, isto é, você conhece pessoalmente alguém que conhece alguém que conhece alguém que conhece alguém que conhece alguém que conhece o papa. Em vez do papa, poderia ser qualquer outra pessoa do mundo. Um estudo similar foi publicado em 1990 por John Guare e vários matemáticos e estatísticos citam esse fato em diferentes livros e artigos. Os data scientists do Facebook verificaram que nos anos recentes houve um aumento nessa densidade de contatos, reduzindo a distância média para cerca de 3,57 níveis em 2016 e provavelmente menor agora. 
 
Claro que pessoas diferentes apresentam redes sociais com diferentes densidades, e algumas podem precisar de 7 ou 8 níveis até uma conexão com o presidente dos EUA ou com sheike de Brunei, mas a média mundial é cerca de 3,5 com desvio-padrão em torno de 0,3. O gráfico abaixo mostra a distribuição dessa variável entre usuários do Facebook em 2016: 

 

Embora esse número esteja diminuindo nas redes sociais, é possível que estejam aumentando (ou pelo menos esteja estável) nas relações presenciais. Portanto é provável continue em torno de 6 para contatos presenciais. 
 
Até 2014, havia uma ferramenta por meio da qual uma pessoa poderia visualizar sua rede de contatos no LinkedIn, mas o serviço não está mais disponível, infelizmente. Os dois gráficos a seguir mostram dois exemplos dessas redes de contatos: 

 

Escolhi gráficos bastante diferentes para exemplificar que em alguns casos a pessoa está conectada a um grupo que seus contatos também estão quase todos interligados entre si e razoavelmente isolados de outros grupos, enquanto outras pessoas estão conectadas a grupos com perfis bastante diversificados, com um alcance muito maior num nível mais estreito de número de conexões. 
 
Isso significa que algumas pessoas estão muito mais propensas a contrair e transmitir COVID, enquanto outras apresentam probabilidade muito menor de contrair e de transmitir. Esse cenário se modifica rapidamente quando uma pessoa que pertence a um grupo relativamente isolado é infectada, porque imediatamente todos os integrantes daquele grupo aumentam dramaticamente a probabilidade de serem também infectados. Por isso existe a ilusão de que algumas pessoas estão numa situação de baixo risco, porque vivem numa país ou cidade com poucos casos, mas basta que surja uma pessoa infectada em sua rede para que esse quadro mude imediatamente, e sem prazo para reagir. 
 
Eu estava conversando com um amigo sobre isso, que inicialmente eu achava o risco muito alto, mas depois de ver algumas estatísticas sobre letalidade em função da faixa etária, fique relativamente menos preocupado. Porém depois da conversa com ele, revisei minha opinião e creio que na verdade a situação é muito preocupante, para não dizer desesperadora. Isso é particularmente grave porque aparentemente não estão sendo tomadas as necessárias providências para conter a velocidade de propagação, talvez porque estejam pensando que ainda não há motivo para pânico, quando na verdade o motivo para pânico existe desde o início e se está lidando com isso com muita negligência. 
 
Cerca de 95% da população está ligada a qualquer outra pessoa do mundo em menos de 8 nós. E nesse caso não se trata de conexão entre 2 pessoas, mas entre uma pessoa e um grupo que já conta com mais de 127.820  infectados oficialmente registrados (até 10:29 h de 12/3/2020), de acordo com o site https://www.arcgis.com/apps/opsdashboard/index.html#/bda7594740fd40299423467b48e9ecf6.  
 
E o número total de infectados deve ser 10 vezes maior, mas ainda não foram diagnosticados. 
 
Por isso a ilusão de que pessoas na China ou Europa não oferecem perigo a brasileiros está muito distante da realidade, porque mesmo que você não conheça ninguém que viajou para a China ou Itália, é muito provável que você conheça alguém que conhece alguém que viajou e muito mais provável que você conheça alguém que conhece alguém que conhece alguém que viajou. Portanto o seu risco em segundo ou terceiro grau é altíssimo. 
  
Esse artigo está sendo colocado na seção de “outros temas” mas também na seção “investimentos”, porque embora o impacto sobre as bolsas ainda não seja tão grande, é provável que aumente rapidamente, acelerando uma queda que já se mostra alarmante. Não há como avaliar com segurança, porque grandes operações especulativas podem introduzir muita aleatoriedade, mas o que se tem observado recentemente é que as quedas estão se intensificando, ao mesmo tempo em que a doença está crescendo exponencialmente. 
  
Minha recomendação a todos é que evitem sair de casa e tenham somente contatos absolutamente necessários com outras pessoas. Evitem ao máximo viajar e ambientes com grande fluxo de pessoas, como aeroportos, rodoviárias, bem como aglomerações urbanas, estádios de futebol, shows etc. Além disso, se você está comprado em ações, avalie com muito cuidado seus riscos. No Mercado Financeiro não existem ganhos fáceis. Se as altas recentes pareciam um caminho tranquilo e seguro, esse fato veio aniquilar as fantasias de quem acreditava em duendes e Papai-Noel, com um golpe duro e impiedoso, e que se causar dor exclusivamente monetária, ainda terá sido ótimo porque poderia ser muito pior. 

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