26 de novembro de 2019

A FRAUDE DO SÉCULO

Breve análise do filme “The Big Short” 

Por Hindemburg Melão Jr. 

 

Ontem a Tamara e eu assistimos a um filme que me pareceu bastante assustador, sob diversos aspectos. No site do Saturno V, e principalmente no site antigo, fiz algumas denúncias sobre cursos, livros e robôs que são vendidos como fossem capazes de gerar lucro, bem como alguns casos relativamente mais raros envolvendo corretoras, competições e rankings. Nos casos de cursos, livros e robôs, mais que 99,99% são ineficientes. Nos casos de corretoras, os casos nos quais cheguei a constatar algum tipo de irregularidade representam perto de uns 20%, especialmente a FXCM, que deliberadamente não pagava swaps positivas aos clientes e chegou a criar cotações falsas com diferenças maiores que 500 pipets das cotações verdadeiras. Outras produziam spikes artificiais, como InterbankFx, MIG, Oanda. Outras introduziam ruídos nas cotações de contas demonstrativas, para gerar resultados falsamente bons com sistemas de scalper, que não podiam ser reproduzidos quando a pessoa operava nas contas reais, entre outros truques.  

  

Mas eu achava que essas coisas não aconteciam em bancos de prestígio mundial e outras grandes instituições financeiras. Em 2008, foi descoberto que o Lehman Brothers apresentava uma quantidade imensa de irregularidades que vinham sendo praticadas há anos, e em 2012 foi descoberta uma fraude multibilionária que envolvia muitos dos maiores bancos do mundo, o que ficou conhecido como escândalo LIBOR https://www.investopedia.com/terms/l/libor-scandal.asp. Na notícia original, suspeitava-se de que a fraude LIBOR era praticada desde 2007, depois encontrou-se evidências de que era praticada desde 2005 e talvez desde 2003. Mas eu achava que esses fossem casos relativamente raros. O que o filme “The Big Short” nos mostra é que essas práticas são extremamente comuns.  

  

Não tenho conhecimento para saber em que medida as informações apresentadas no filme são verdadeiras e acuradas, mas, de modo geral, me pareceram consistentes com algumas experiências que tivemos.  

  

Antes desse filme, minhas críticas às grandes instituições financeiras, agências de rankings e de análise de risco eram de caráter técnico, por elas utilizarem métodos ineficientes, impregnados de falhas, de modo que suas avaliações de fundos, bancos etc. não refletiam adequadamente a realidade. Mas eu não imaginava que além da imperícia no exercício de suas funções, também houvesse má fé num nível tão sórdido quanto o que foi retratado.  

  

Mesmo ao descontar uma dose considerável de dramatização típica de Hollywood, se os fatos divulgados no filme forem essencialmente verdadeiros, isso revela um quadro terrivelmente triste sobre o comportamento das pessoas que dirigem algumas das instituições nas quais a população mais confia, são montanhas de fraudes praticadas indiscriminadamente por bancos, entidades reguladoras, auditores, agências de análise de risco...  

  

Uma das cenas mais traumáticas para mim foi quando um gestor foi questionar uma funcionária da Standard & Poor’s, que ao lado da Moody’s e Fitch são talvez as 3 maiores agências da atualidade que analisam o risco de crédito de instituições financeiras. Essas agências são contratadas para analisar documentos fornecidos pelos bancos e atribuem escores conforme o nível de risco. No filme, esse gestor suspeitava que alguns títulos oferecidos como se tivessem risco AAA (risco baixíssimo) poderiam na verdade ter risco muito maior, o que os qualificaria como AA, A, BBB, BB ou menos. Ao questionar a funcionária sobre isso, depois de ela relutar bastante tempo em responder, finalmente ela disse: “se não fizermos o que eles (bancos) querem, eles vão até a esquina e contratam a Moody’s”.  

  

Uma das frases ditas pelo protagonista do filme reflete bem como a maioria das pessoas pensa em relação a um tema que está presente nas vidas de todos: “As pessoas querem uma autoridade para lhes dizer o que devem fazer, mas escolhem essa autoridade não com base em fatos ou resultados. Escolhem porque parece autoritária e familiar.”  

  

As pessoas geralmente acreditam que os bancos são instituições confiáveis, sérias, com uma sólida reputação a zelar, onde podem guardar seu dinheiro com segurança, podem confiar nos produtos de investimentos que seu gerente lhe oferece etc. As pessoas pensam isso sobre os bancos porque são instituições que existem há muitas décadas ou séculos, porque movimentam volumes imensos de dinheiro, porque os funcionários dos bancos são orientados a se vestir, a se comportar, a falar, a olhar, a andar, a ajustar suas atitudes de modo a inspirar confiança e empatia nos clientes.  

  

Não deveria ser assim, porque o Acordo da Basileia impõe uma extensa lista de exigências para que um candidato a banqueiro tenha sua proposta de incorporar um banco aprovada, e possa receber clientes. As exigências incluem auditorias periódicas feitas por entidades independentes e consagradas. Mas quando vem à luz o fato de que as próprias agências que atestam a qualidade de crédito dos bancos são corruptas, isso gera uma sensação imensa de insegurança.  

  

Acho difícil que um banco pegue o dinheiro das pessoas e suma, embora isso já tenha acontecido no Brasil por ordem do presidente Collor, mas acho improvável que algo semelhante se repita. A meu ver, o que se revela como muito provável e frequente é a oferta de produtos de investimentos de altíssimo risco e baixíssima qualidade como se fosse de baixíssimo risco e altíssima qualidade! Em meus artigos sobre tesouro direto, discuto precisamente essa questão. E esse fato é repetidamente mostrado no filme como uma realidade cotidiana entre as pessoas que atuam nesse meio, inclusive nos Estados Unidos, onde o nível de corrupção é provavelmente menor do que no Brasil.  

  

Também achei muito interessante como a mídia evita bater de frente com os banqueiros, mesmo diante a evidências de que estejam fraudando descaradamente o sistema e lesando milhões de pessoas. Os bancos estão entre os maiores anunciantes das grandes mídias e preferem encobrir essas fraudes do que criar conflitos com seus clientes.  

  

De modo geral, achei o filme muito interessante e esclarecedor, embora alguns trechos não reflitam com fidelidade o que aconteceu. Por exemplo: a parte em que dizem que ao socorrer os bancos, o presidente estava tirando dinheiro do povo para cobrir as perdas dessas instituições. Na verdade, o povo americano foi cúmplice nesse processo, porque muitas pessoas sabiam (ou deveriam saber) que não teriam condições de honrar as dívidas contraídas, mesmo assim tomaram empréstimos a torto e a direito, aproveitando-se do relaxamento nos quesitos para concessão de créditos. Retratar o povo como vítima me pareceu mais um golpe publicitário para conquistar a empatia dos espectadores. Além disso, o povo americano foi relativamente menos penalizado do que os países estrangeiros que possuíam reservas multibilionárias em dólares desde o final do acordo de Bretton Woods, em 1971. Assim, ao imprimir dólares, o governo americano provocava a automática desvalorização de cada cédula e cada moeda de dólar espalhada pelo mundo. Isso incluía os cidadãos americanos, mas eles representavam uma parcela relativamente pequena.  

  

Digamos que houvesse 100 trilhões de dólares em reservas pelo mundo, então quando o presidente Obama decidiu imprimir 1 trilhão de dólares para salvar os bancos, cada cédula de $ 1 no mundo foi imediatamente desvalorizada na proporção de 100/101 ou cerca de 1%, como se o mundo inteiro tivesse compulsoriamente contribuído para pagar o rombo causado pelos banqueiros americanos. Apesar disso, não reclamaram muito, porque se não fosse feito isso, os Estados Unidos entrariam em colapso, e os países que dependiam da indústria, da tecnologia e de produtos americanos, em geral, afundariam junto. Seria um desastre de proporções mundiais. Aliás, foi um desastre, mas muitíssimo atenuado por essa decisão do Obama.  

  

Convém esclarecer que isso não teria sido possível na trágica quebra da bolsa de Nova Iorque, em 1929, em que a queda chegou a 89% (em 2008 a queda foi em torno de 55%). A diferença é que em 1929 o restante do mundo não possuía reservas em dólares, por isso se os Estados Unidos tentassem resolver o problema imprimindo dólares, seria como alguém tentar remover a si mesma da água puxando-se pelos próprios cabelos para cima. Esse recurso “mágico” de transformar papel em dinheiro só possível devido ao cenário que começou a ser criado com acordo de Bretton Woods, de 1944, e que se consolidou com o fim desse acordo, em 1971. O dinheiro de qualquer país é apenas papel, exceto o dinheiro dos Estados Unidos, que tem valor intrínseco devido às reservas mundiais que outros países possuem em dólares.  

  

Portanto a emissão de dólares para salvar os bancos não lesou tão gravemente o povo americano, como o filme sugere, porque o impacto dessa emissão se diluiu entre o mundo inteiro, já que todos os países foram “furtados” nesse processo e forçados a ajudar a pagar o rombo causado pelos bancos americanos.  

  

Há outros pequenos detalhes do filme que eu gostaria de comentar, mas acho que os pontos principais já foram expostos, e como estou entusiasmado com o brinquedo novo (Cantor) e focado no desenvolvimento das novas versões do Saturno V, minha motivação para escrever artigos longos está bem menor.  

  

É um filme que recomendo a todas as pessoas que tenham algum envolvimento com o Mercado Financeiro, por mostrar a realidade podre por trás da cortina perfumada e colorida que encobre algumas das maiores e mais respeitadas instituições da atualidade.  

  • Branca Ícone LinkedIn
  • Branco Facebook Ícone
  • Branca ícone do YouTube
  • Branca Ícone Instagram

CONTATO

Para agilizar seu atendimento, por gentileza, preencha corretamente todos os campos abaixo:

© 2019 Saturno V Todos os direitos reservados. O Saturno V não comercializa nem distribui cotas de fundos de investimento ou qualquer outro ativo financeiro, fornecemos licença de uso do sistema automatizado.