COPA DE 2018, POR QUE OS FAVORITOS RARAMENTE SÃO CAMPEÕES?

Por Hindemburg Melão Jr

Decidi escrever esse artigo para apoiar os jogadores brasileiros e para esclarecer alguns detalhes sobre porquê raramente o time que se consagra campeão é o time mais forte. Vou começar com minha mensagem de apoio.

Em 2014 o brasil perdeu por 7x1 para Alemanha e depois 3x0 para os Países Baixos (imagina se fossem altos)! Nessa copa perdeu por apenas 2 x 1 para a Bélgica, portanto houve grande evolução.  Embora o brasil tivesse chegado às semifinais na copa anterior, é menostraumático perder por 2x1 nas quartas de final do que por 7x1 nas semifinais. Além disso, a copa de 2014 foi disputada com uma bola diferente da que os brasileiros estavam acostumados, era uma bola “quadrada” (topologicamente era um cubo, enquanto as antigas eram icosaedros).*

Em segundo lugar, se comparar esse resultado com outros obtidos pelo brasil em Educação, Tecnologia, renda per capita, IDH etc., e até mesmo comparando com outras modalidades esportivas, o desempenho do brasil no futebol se mostra muito mais notável que em outras áreas. Em Educação, por exemplo, o brasil foi o penúltimo entre países considerados na pesquisa. Em IDH o brasil ficou em 79º, atrás inclusive do Líbano, o que não é muito fácil de se conseguir, considerando que o Líbano esteve em guerra entre 1975 e 1990 e novamente entre 2011 e 2017.

Por isso é extremamente honroso quando o brasil consegue ficar entre os 8 melhores do mundo em alguma modalidade. Em vez de o povo ficar triste e criticar os atletas, deveria dar apoio para que se saíssem ainda melhor na próxima.

Outro ponto a considerar é que os escores em jogos de futebol são geralmente muito pequenos, o que confere maior peso ao fator sorte e aumenta o risco de o melhor time perder. Entre 1962 e 2014, a média de gols por jogo em Copa do Mundo foi menor que 3. Em jogos de basquete, por exemplo, cada time geralmente faz dezenas de pontos, ou até mais de uma centena. Em futebol, cada time geralmente faz de 0 a 3 gols, raramente mais de 5 e muito raramente mais de 10. Isso faz com que o basquete seja mais acurado em determinar qual foi o time mais competente.

Para compreender a razão disso, faremos uma analogia com lançamentos de uma moeda assimétrica, em que uma face tem 60% de probabilidade de cair para cima. Se fizer 150 lançamentos, é muito mais provável que o resultado dos lançamentos evidencie essa assimetria por meio da predominância de vezes que cai com a face mais provável para cima do que se fizer apenas 5 lançamentos. Com apenas 5 lançamentos, o risco de a face menos provável cair mais vezes para cima é muito maior. Analogamente, num jogo em que a soma dos gols dos dois times fosse 150, seria muito mais provável que o time mais forte tivesse marcado a maioria desses gols do que num jogo com apenas 5 gols, e pior ainda com 3 gols.

Se fossem realizadas 6 séries de 5 lançamentos, a probabilidade de a face mais provável cair mais vezes seria 68,256%, portanto o risco de que em pelo menos uma destas 6 séries a face com 40% de probabilidade caísse para cima seria 89,8878%. Isso significa que, embora a face mais provável tenha (obviamente) maior probabilidade de obter maioria em cada série, quando se considera 6 séries, a face mais provável teria apenas 10,1122% de probabilidade de obter maioria em todas as séries. Com 150 lançamentos a situação muda completamente, e a probabilidade de que o mais provável ocorra mais vezes passa de 68,256% para 99,173%. Com isso, a probabilidade de o mais provável ocorrer mais vezes em todas as 6 séries sobe para 95,1395%.

Num campeonato por eliminatória simples com 32 times (26 ), para ser campeão é necessário vencer 6 jogos. Para vencer é necessário fazer a maioria dos pontos (gols). Se a soma dos pontos de cada jogo é cerca de 5, a probabilidade de o time mais forte se consagrar campeão é muito menor do que se a soma dos pontos fosse 150, como ocorre no basquete. Na analogia com o lançamento de uma moeda assimétrica, podemos verificar que se a soma dos pontos fosse 150, a probabilidade de o melhor ser campeão seria 95,14%, ao passo que se a soma dos pontos fosse 5, a probabilidade de o melhor time ser campeão cairia para 10,11%.

Uma das maneiras de “resolver” esse problema, que faz com que o campeão da copa do mundo geralmente não seja o time efetivamente mais competente, seria aumentando o tamanho do gol, de modo a que a soma dos gols em cada jogo fosse maior. Outra maneira seria aumentando o tempo de jogo, mas isso deixaria os atletas exaustos e se tornaria mais uma prova de resistência do que de habilidade. Outra maneira seria aumentando o número de jogos, em que cada match fosse o melhor de 10 jogos, mas isso aumentaria muito o número de jogos e geraria complicações operacionais. Outra opção seria usar o sistema Schuring (todos contra todos), ou o sistema suíço (cada time enfrenta um adversário que esteja com escore semelhante e ninguém é eliminado até o fim). Também haveria soluções mais criativas, como deixar os goleiros com as mãos amarradas nas costas, ou com olhos vendados, ou proibir que o goleiro usasse as mãos na defesa.

Outra alternativa (que já existe) é reduzindo o tamanho do campo, como no futebol de salão, em que leva menos tempo para cada time chegar até o gol adversário e, com isso, consegue-se marcar mais pontos no mesmo intervalo de tempo.

Sob o ponto de vista de justiça esportiva, e outros aspectos, a solução que mais me agrada é aumentar o tamanho do gol (trave), mas isso teria grande impacto comercial e publicitário, porque havendo maior número de gols em cada partida, a motivação para comemorar cada gol soltando rojões seria menor. Basta comparar com o que ocorre no basquete. Não se solta fogos a cada ponto marcado no basquete; só se faz isso ao final da partida. Essa solução também seria muito apreciada por cachorros, cavalos e outros animais que ficam aterrorizados com os fogos, muitas vezes chegando a se ferir ao tentar se esconder.

Por fim, acho que seria interessante se a mídia começasse a divulgar e exaltar com mais entusiasmo as conquistas dos brasileiros em Olimpíadas Internacionais da Matemática, Física, Informática, Redação, Química, Astronomia etc., nas quais o brasil vem conquistando destaque cada vez maior no cenário internacional. E, obviamente, deveria dar muito maior ênfase à medalha Fields de Artur Ávila, ao prêmio Ramanujan de Fernando Codá, ao prêmio Bozano de Jacob Palis, entre outros. Diferentemente do futebol, que não é uma atividade produtiva e não traz nenhum benefício ao país nem aos cidadãos, como consequência da habilidade dos atletas, os prêmios acadêmicos são homologados a pessoas que contribuem, e muito, para os brasileiros e para a humanidade, ao criar novas tecnologias com diversas aplicações em Saúde, Educação, Transportes, Segurança, Comunicações e todos os campos de atividade humana. Ironicamente, Neymar ganha US$ 37 milhões por ano, enquanto um pesquisador do IMPA ganha entre US$ 40 mil a US$ 60 mil por ano. Claro que a mídia também poderia divulgar os prêmios conquistados pelo Saturno em rankings internacionais de fundos.  Embora o Saturno não gere novos benefícios, desempenha o importante papel de realocação de recursos, tirando dinheiro dos outros investidores e levando esse dinheiro às mãos dos saturnistas.

* Quem tiver interesse em entender porquê a bola da Copa de 2014 é um cubo, recomendo esse vídeo.

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