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18 de Julho de 2020

REGISTROS DA REDUÇÃO DA CALOTA POLAR DO SUL DE MARTE

Por Hindemburg Melão Jr

 

Assim como a Terra, Marte também possui estações do ano relativamente bem definidas, porém como a excentricidade orbital de Marte é muito maior que a da Terra (0,0934 contra 0,0167), o clima em Marte acaba sendo influenciado pela distância ao Sol aproximadamente na mesma proporção que é influenciado pela obliquidade com que os raios solares incidem sobre a superfície em função da inclinação do eixo axial. Isso faz com que o Verão no hemisfério Sul de Marte seja muito mais quente que o Verão no hemisfério Norte, com temperaturas que podem chegar a quase 40ºC, enquanto no hemisfério Norte raramente chegam a 25ºC. Em contrapartida, o Inverno no hemisfério Sul é muito mais frio, chegando a cerca de -140ºC próximo ao polo, enquanto no hemisfério Norte chega a cerca de -120ºC. 


Os mapas climáticos abaixo mostram as faixas de temperatura em Marte no Verão no hemisfério Norte e depois o Verão no hemisfério Sul:

 

Ontem, Carlos Palhares postou uma foto que ele fez de Marte, chamando a atenção para uma diferença de albedo próxima à calota polar Sul.

 

 

Como o Verão no hemisfério Sul de Marte praticamente coincide com o periélio, meu primeiro palpite foi que aquela mancha poderia ser um indício de que a calota está derretendo; na verdade, sublimando, porque a pressão atmosférica em Marte é muito pequena, o que torna difícil para a água se manter em estado líquido. 
 
Fui conferir em minhas fotos dos dias 12 e 14, e realmente a calota havia diminuído, além de formar uma mancha clara em volta, provavelmente nuvens cirrus. 
 
Logo depois, Martini Jr. fez alguns comentários e depois Vinícius Martins postou uma foto recente de Damien Peach, na qual não estavam visíveis esses detalhes. Então fui ver como estava o tempo, e parecia bom, com leve nebulosidade, faltando algumas horas para Marte se tornar visível. Fui assistir com a Tamara, cochilei um pouco, e depois fui ver como estava o céu. A névoa havia “engrossado” bastante, as estrelas de mv 3,5 já não estavam visíveis, mas algumas semanas atrás, Avaní Soares havia comentado que a presença de névoa fina não implica impedimento para se fazer boas fotos planetárias, podendo inclusive ajudar a estabilizar a imagem. De fato, no dia 14 as fotos foram com uma névoa fina e ficaram boas, mas hoje estava muito mais densa. Por via das dúvidas, decidi tentar, se estivesse ruim, iria dormir, caso contrário, tentaria registrar a calota para ver se continuava diminuindo. 
 
O resultado foi surpreendente! A imagem ficou com vários detalhes e baixíssima turbulência. A névoa afetou um pouco a transparência, exigindo aumentar o gain e, consequentemente, aumentou o ruído, mas o resultado acabou ficando acima de minhas expectativas. 
 
Ao comparar com as fotos dos dias anteriores, a redução no tamanho da calota ficou muito evidente, bem como a aparente formação de nuvens cirrus nas imediações, já que a região ficou mais clara. 
 
A foto do Damien coincidentemente também foi postada por Jefferson Mazzoni, algumas horas depois, e pode ser vista aqui. 
O ideal seria ter feito o registro com o mesmo meridiano central, para evitar que o tamanho aparente da calota fosse afetado pela rotação do planeta, já que a calota não cobre a região polar de forma simétrica. Apesar de não ter sido possível cuidar desse detalhe, são vários fatores combinados que sugerem essa possibilidade: 
  
1. A mancha clara em volta da calota parece ser formação de nuvens, devido à sublimação da água e do dióxido de carbono. 
2. Como Marte está se aproximando do Sol devendo alcançar o periélio em outubro, sua superfície está aquecendo. 
3. Como o Verão no hemisfério Sul também está se aproximando, o polo Sul está aquecendo mais que outras regiões. 
4. O tamanho aparente das calotas parece estar progressivamente menor na série de fotos nos dias recentes. 
 
Por outro lado, como a foto de Damien Peach não parece apresentar indícios semelhantes, fica ainda alguma dúvida. 
 
Outro detalhe que gera dúvida é porque o tamanho da calota medida no Photoshop tem 2307 pixels em 12/7/2020, 2074 em 14/7/2020 e 2005 em 18/7/2020, apresentando um decrescimento desacelerado, mas seria esperado que o decrescimento fosse acelerado, já que quanto mais ela sublima, maior passa a ser a concentração de CO2 na atmosfera, aumentando o efeito estufa e acelerando o aquecimento. Além disso, as calotas são quase brancas, refletem muito mais luz que a superfície rochosa, de modo que ao reduzir as calotas também reduz a quantidade de luz refletida, isto é, aumenta a quantidade de luz absorvida, portanto esse efeito também deveria acelerar o aquecimento. Mesmo considerando que o diâmetro aparente do planeta está aumentando, portanto 2005 pixels em 18/7/2020 representa menos que os mesmos 2005 pixels em 14/7/2020, ainda haveria desaceleração no processo, quando o esperado seria que houvesse aceleração. Contudo, a incerteza nas medidas das calotas é grande, porque as bordas não são bem delimitadas. Além disso, a redução pode ocorrer não apenas em área mas também em espessura, o que seria mais difícil de notar. 
 
Enfim, há alguns indícios de que a calota polar Sul já começou a diminuir, mas ainda não há dados conclusivos. 

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